Fernando Santos publicou mais um livro e desta vez sobre “As Origens do Ensino do Português nos Estados Unidos”. É o sexto livro que publica tentando deixar para a posteridade luso-americana alguns capítulos da história comunitária.
Depois de uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Fernando fez parte do quadro redatorial da Agência France Press em Lisboa e que deixou para vir para Newark, onde tinha familiares e começou a trabalhar no semanário “Luso Americano”, que se publica desde 1928 naquela cidade de New Jersey.
Durante 36 anos, Fernando foi chefe de redação do “Luso” e algum tempo correspondente da agência Lusa. Deixou o “Luso” em 1987 para fundar o semanário “Portuguese Post”, que se publicou em Newark, mas em 1990 voltou ao “Luso”, onde se manteve até reformar-se em agosto de 2010.
Pelo seu trabalho como jornalista, Fernando Santos foi distinguido em 1997 pela Secretaria de Estado das Comunidades com o Prémio Jornalismo das Comunidades Portuguesas e em 2008 com o prémio Talento Comunicação Social.
Escrevendo sobre os problemas e os sucessos dos imigrantes portugueses, Fernando acumulou uma experiência rica sobre a comunidade portuguesa nos Estados Unidos e, reformado dos jornais, decidiu aprofundar essa narrativa em livro.
Há oficialmente 1,45 milhões de pessoas de origem portuguesa a residir nos Estados Unidos, de acordo com o mais recente censo e os sucessos individuais ou coletivos da comunidade luso-americana são um campo vasto para uma investigação histórica que Fernando Santos tem sabido aproveitar.
Contudo, o seu primeiro livro, “Por Quem os Sinos Não Dobram” (1994), foi sobre uma tribo indígena da Amazónia brasileira, os ianomanis, entre os quais Fernando viveu oito dias.
Os ianomanis, que são aproximadamente 35 mil indivíduos, são uma das mais de 180 tribos da Floresta Amazónica e, entre muitos outros rituais, praticam o endocanibalismo, ritual em que consomem os ossos de familiares falecidos. O corpo do falecido é envolto em folhas, colocado na floresta até ser consumido pelos insetos. Os ossos são depois cremados e as cinzas misturadas numa espécie de sopa de banana que é consumida por toda a comunidade.
O segundo livro foi sobre “Os Portugueses no Hawaii”, aproveitando umas férias nas ilhas do Pacífico, onde se calcula que mais de um milhão de habitantes têm sangue luso, mas só cerca de 57.000 se declararam portugueses no recenseamento populacional.
Fernando Santos apurou que se publicaram no Hawaii pelo menos 12 jornais portugueses, o primeiro dos quais circulou em Honolulu de 1885 a 1888 e intitulava-se “O Luso Americano”. Mas segundo o autor, “o fim da emigração portuguesa em 1913 comprometeu os jornais de língua portuguesa, que não souberam fazer a transição para inglês e, por isso, apenas sobrevive um único programa radiofónico voltado para a comunidade luso-americana, de conteúdo muito português, mas de locução em inglês. É o “Sounds of Portugal and the Latin World”, dirigido por Audrey Rocha Reed e no ar desde 1974”.
Descendente de madeirenses, Audrey Rocha Reed é há mais de 40 anos membro da direção da Portuguese Association of Maui, a segunda maior ilha do Hawaii, e o “Sounds of Portugal” continua a ser transmitido ao domingo das 8h00 às 9h00 pela rádio KEWE 1240 AM e 95.5 FM.
A comunidade lusa do Hawaii está mais viva do que muita gente imaginará. Na ilha de Oahu, onde se ergue a cidade de Honolulu, o Portuguese Cultural & Historical Center, presidido por Wilma Sousa Bondreau, está a construir um Portuguese Cultural Center em terrenos (6,5 acres) cedidos por Peter Savio. Em 17 de setembro de 2025 realizou-se uma gala de angariação de fundos e a atração foi Gleen Medeiros, luso-havaiano que foi ídolo da canção nos anos 80 e hoje é professor e diretor da St. Louis School em Honolulu, mas continua a cantar.
Em 2014, Fernando Santos publicou “Os Portugueses em New Jersey”, onde viviam apenas 91 portugueses em 1890, mas em 1910 já eram 337 e hoje são 76.000, residentes sobretudo na cidade de Newark, onde o bairro do Ironbound é conhecido como “Little Portugal”.
Em 2016, Fernando Santos publicou “Luso-Americanos que Morreram ao Serviço das Forças Armadas dos EUA” e foram muitos. Embora não haja um grupo específico de “portugueses que deram a vida pelos EUA” amplamente conhecido, muitos luso-americanos serviram nas forças armadas dos Estados Unidos.
Na historiografia das guerras travadas pelos Estados Unidos abundam relatos da participação dos lusodescendentes. Ainda antes da independência dos Estados Unidos, em 1783, vários judeus portugueses fugidos à Inquisição no século XVIII ingressaram nas fileiras americanas nos navios que combateram os britânicos entre 1778 e 1783, e a bordo do mítico Bonhomme Richard havia 11 portugueses.
Na Guerra Civil Americana (1861-65), centenas de açorianos, madeirenses e cabo-verdianos (na altura portugueses), integraram as tropas da União lutando contra a escravatura. Alguns tornar-se-iam heróis nacionais, como o general Francis Barretto Spínola, filho de madeirenses e que seria congressista pelo estado de New York.
Na I Guerra Mundial (1914-18), 15 mil portugueses alistaram-se no Exército americano para combater a Alemanha, mas na II Guerra Mundial (1939-1945) foram mais de 100 mil.
As comunidades lusas na Costa Oeste e no Hawaii foram sobretudo incorporadas nos batalhões que combatiam no Pacífico. Para a Europa viajavam os luso-americanos da Costa Leste (Massachusetts, Rhode Island, New York e Connecticut). A famosa Yankee Division, que participou no desembarque na Normandia, foi mobilizada em Massachusetts e, nas suas fileiras, contavam-se milhares de lusodescendentes. Nessa operação (a Guerra das Ardenas) perderam a vida 75 mil americanos e muitos eram portugueses.
Em 2022, Fernando Santos publicou “Atribulações do 10 de Junho até se tornar Dia de Portugal”, tudo “por causa de uma viagem à Índia por um certo poeta chamado Luís Vaz de Camões falecido em 10 de Junho de 1580”.
O mais interessante é que, muito antes do 10 de Junho ser decretado como Dia de Portugal em Portugal, a data já era assinalada pelas comunidades portuguesas nos Estados Unidos e há notícia de um Dia Português celebrado no Hawaii em 1893 e de um Festival Português promovido em 1894 pela União Portuguesa do Estado da Califórnia.
Em 2026, Fernando Santos acaba de publicar “As Origens do Ensino do Português nos Estados Unidos”, um volume de 400 páginas que é resultado de uma investigação de vários anos.
Segundo o autor, “o livro está dividido em quatro partes, centrando-se a primeira no apetite americano pelo comércio e parceria política com o Brasil revelado já antes do século 20 e que foi a causa da mobilização académica para o ensino do português a nível universitário e das escolas secundárias.”
A segunda parte “é dedicada ao ensino do português a nível universitário, recuando o primeiro registo ao St. Mary’s College de Baltimore e a 1816. Em Harvard, a língua portuguesa era ensinada muito provavelmente em 1826 e de certeza em 1831(…) São também divulgadas diversas estatísticas sobre o estudo do português a nível universitário referentes a vários anos. As mais recentes referem-se ao Outono de 2021, semestre em que, segundo um estudo da Modern Languages Association, havia 7.684 estudantes de português em 189 universidades americanas.”
O ensino ao nível das escolas secundárias ocupa a terceira parte deste volume, surgindo os primeiros registos nos anos 1920 na área da Baía de San Francisco e na quarta parte são focadas as escolas comunitárias das associações portuguesas desde os esforços de raiz comunitária que recuam a 1880 na Califórnia, até aos nossos dias passando pela fracassada intervenção governamental portuguesa iniciada legislativamente em 1911 e operacionalmente entre 1917 e 1923/24 no Hawaii e na Nova Inglaterra.”
Sobre a comercialização do recém-publicado livro, Fernando Santos não tem ilusões:
“Escrevo para as bibliotecas e para um grupo limitado de pessoas interessadas. Fora deste círculo não há mercado.”
Contudo, deixa um email para eventuais interessados: cantoonze@outlook.com.





0 Comments