2026 respira pela primeira vez: Sobre escutar, pertencer e as possibilidades que se abrem

by | Jan 7, 2026 | Raízes e Horizontes

 

O ano que passou não se encerrou de forma abrupta; recolheu-se. 2025 afastou-se lentamente, como o mar depois de uma maré cheia, deixando na pele um rasto de sal — memória, cansaço, aprendizagem. 2026 inicia-se assim: não como rutura, mas como respiração retomada. Ao cruzar este limiar, não trago balanços triunfais nem listas de feitos. Trago, antes, o que 2025 me ensinou com discrição: a necessidade de permanecer fiel aos Açores e àqueles que transportam as ilhas dentro de si, onde quer que a vida os tenha ancorado.

Para mim, o ano de 2025 foi, acima de tudo, um exercício de escuta. Escutar antes de falar. Escutar livros que pediam tradução não como artefactos imobilizados, mas como travessias possíveis. Escutar vozes moldadas pela partida, pelo trabalho persistente, pelo silêncio herdado, pela resistência quotidiana. A tradução voltou a afirmar-se não como domínio, mas como humildade — a consciência de que uma voz só atravessa as nossas mãos se aceitarmos servi-la com cuidado e lentidão. Cada página tornou-se um gesto mínimo de hospitalidade, uma tentativa de fazer chegar a literatura das ilhas àqueles descendentes que já não habitam plenamente a língua portuguesa, mas continuam a sentir os Açores, como um eco profundo, como um chamamento incompleto.

Houve momentos em que o trabalho pareceu diminuto diante da vastidão do que se perdeu ao longo das gerações: a língua rarefeita, a memória fragmentada, as comunidades dispersas como ilhas sem mapa. E, no entanto, foi nessa escala reduzida que o sentido se concentrou. Um livro encontrado por um novo leitor. Uma conversa que substitui a nostalgia pela pergunta viva. Um testemunho guardado não como relíquia, mas como espelho possível. Não foram vitórias. Foram compromissos assumidos.

2025 desenhou-se também no território do diálogo — em apresentações e debates, conferências e simpósios, entrevistas e aulas — cada encontro como tentativa de devolver a cultura à sua vocação primeira: o encontro humano. Nunca procurei unanimidade, mas relação. Foram espaços onde as perguntas difíceis puderam emergir sem urgência: como avançar enquanto diáspora sem perder densidade? Como democratizar a cultura, libertando-a de cercas institucionais e devolvendo-a a todos os que desejam fazer parte da experiência açoriana para além da geografia das ilhas? Regressou sempre a mesma exigência: abandonar a retórica confortável do paraíso e a lógica efémera da visita, em favor de uma responsabilidade partilhada e duradoura.

Ao longo desse caminho, foi-se tornando clara uma intuição que agora, em 2026, pede aprofundamento. Este trabalho — enraizado nos Açores e na sua diáspora — aponta para um horizonte mais vasto: a possibilidade de um mundo lusófono mais ligado, não por uniformidade, mas por valores reconhecidos. Um espaço onde a cultura possa funcionar como linguagem de paz, onde o diálogo se afirme como forma de cuidado, e onde a literatura e a memória contribuam, de modo silencioso, mas persistente, para a saúde, a compreensão e a dignidade humanas. Quando isso acontece, a cultura deixa de ser palco e torna-se prática: algo vivido no quotidiano, transportado para escolas, cozinhas, centros de saúde e conversas simples, moldando a forma como coexistimos.

Vistos a partir de 2026, os Açores revelam-se não como paisagem idealizada para consumo, mas como cultura viva em relação — capaz de aprender com outras e de nelas deixar marca. Uma cultura em diálogo com as múltiplas tradições que compõem o multiculturismo americano e canadiana e a constelação alargada da lusofonia. O que 2025 deixou claro é que o futuro das ilhas, da diáspora e do nosso espaço linguístico partilhado dependerá menos da nostalgia e mais da participação: da capacidade de nos reunirmos como força agregadora, dispostos a escutar, a colaborar e a imaginar um amanhã que não seja exclusivo, mas comum.

Se algo fica como herança de 2025 para 2026, é a consciência de que o compromisso não se herda — renova-se. O amor pelos Açores, pela diáspora açoriana e pela família lusófona mais ampla não pode assentar apenas no sentimento. Exige trabalho contínuo, muitas vezes invisível, e a coragem de duvidar, de escutar mais do que proclamar, de aceitar que aquilo que transmitimos será sempre incompleto. Mas a incompletude não é falha. É o movimento natural da continuidade.

Assim começa 2026: não com certezas, mas com intenções. Continuar a traduzir — não apenas textos, mas valores. Continuar a erguer pontes assentes na paz, na saúde, na cultura e no entendimento. Continuar a retirar a cultura do palco para a devolver à vida quotidiana. E permanecer responsável perante as ilhas que me formaram e as comunidades, próximas e distantes, que continuam a confiar neste trabalho. Como o oceano que nos liga, este compromisso não termina. Afasta-se apenas para regressar, renovado, pedindo, mais uma vez, para ser atravessado.

 

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