1918, o ano em que houve duas festas do Santíssimo Sacramento no norte de New Bedford Por Duarte M. B. Mendonça

by | Jul 29, 2026 | Eventos Comunitários

 

Assinalando-se este ano a 110.ª edição da grande festa do Santíssimo Sacramento, promovida pelo Club Madeirense S.S. Sacramento, Inc., vimos por este meio recordar um desconhecido facto histórico, ou seja, iremos regressar ao ano de 1918, que teve a particularidade de ter duas festas madeirenses do Santíssimo Sacramento com uma semana de intervalo entre ambas.

Uma pesquisa no antigo jornal O Popular, outrora publicado em New Bedford, do qual existe uma cópia, em microfilme, na Boston Public Library, permitiu-nos constatar que na sua edição de 11 de Julho desse ano foi publicada uma publicidade dessa festa, celebrada desde 1915 na igreja da Imaculada Conceição. O anúncio dos “Grandes Festejos em Honra do SS. Sacramento”, realizados nesse templo religioso e promovidos pela Colónia Madeirense nos dias 2 a 4 de Agosto seguinte referia o seguinte:

“No dia 2, Sexta-feira, pelas 7 horas e meia, haverá iluminação, arraial e concerto pelas “National Band” e “City Band”, ambas desta cidade.

No dia 3, Sábado, haverá concerto pelas mesmas bandas e pela “Açorean Band” de Fall River, das 3 às 11 horas da noite.

Às 7 horas e meia, haverá vésperas solenes e bênção com o SS. Sacramento, havendo em seguida iluminação e arraial.

No dia 4, Domingo, depois das missas das 7, 8 e um quarto, 9 e meia e 10 e meia, as bandas acima mencionadas executarão alguns trechos de música.

Às 11 horas, terá lugar a missa solene a grande vocal e instrumental, pregando ao Evangelho o rev. Pároco da Igreja de S. Miguel Arcanjo, de Fall River, o sr. padre João Fontes Ferraz.

Às 4 horas da tarde, sairá a procissão do SS. Sacramento, a qual percorrerá o seguinte itinerário: Diman St., Davis St., Belleville Ave., Collet St., No. Front St. e Earl St., havendo ao recolher, um solene “Te-Deum” a grande vocal e instrumental, música do grande maestro da Sé Patriarcal de Lisboa, Carlos Augusto de Araújo, terminando este acto religioso com a bênção do Santíssimo.

Em seguida continuará o arraial e iluminação, executando as 3 Bandas de música os melhores números dos seus repertórios. Todas as ruas por onde passar a procissão serão ornamentadas à moda da Madeira.

Tanto o adro da igreja, como as ruas Diman e Earl serão profusamente iluminadas a electricidade, havendo especial decoração eléctrica em volta da igreja que fará salientar todos os traços da arquitectura.

A Comissão – PRESIDENTE, Frank Fernandes, 42 Belleville Ave., TESOUREIRO, Manuel Gonçalves; SECRETÁRIO, António Câmara; VOGAL, José Alves Ferro; VOGAL, José Gomes Henriques.

A Comissão pede aos seus patrícios desta cidade e de fora dela, que enviem ao seu Presidente as quantias com que prometeram contribuir para o custeio destes grandes festejos.”

Este anúncio, que é deveras elucidativo acerca de todos os aspectos da festa, seria republicado nesse semanário a 18 e 25 de Julho e ainda a 1 de Agosto. Sendo O Popular o jornal português de New Bedford mais antigo do qual ainda se pode consultar parte da sua colecção, esta publicidade é, igualmente, a mais antiga desta festa de que temos conhecimento, daí a sua extrema importância.

Por seu turno, na rubrica “Noticiário” da edição de 18 de Julho de 1918, foram anunciadas as grandes festas com esta invocação: “FESTIVIDADE – Conforme se vê dos anúncios que vão publicados na presente página e na 6.ª página deste jornal, em breve teremos grandes festejos no Norte desta cidade. É a colónia madeirense que vai despender alguns milhares de dólares em festas em honra do SS. Sacramento.”

Esta breve nota deixava antever que nesse ano seriam realizadas, não uma, mas sim duas festas madeirenses em honra do Santíssimo Sacramento em New Bedford. A católica, a que acima aludimos, e outra, vectro-católica, que mencionaremos de seguida. Mas precisamos de contextualizar tal facto, para melhor compreensão pelos leitores do presente. 

Segundo referimos no nosso livro Da Madeira a New Bedford, havia por essa altura no norte desta cidade uma igreja vectro-católica, que estava em cisma com Roma, com o nome de Igreja do Santíssimo Sacramento, liderada pelo bispo António Roberto Rodrigues, que era natural de Gaula, concelho de Santa Cruz, na ilha da Madeira e que, antes de emigrar para os Estados Unidos fora padre católico da Diocese do Funchal. Tal igreja situava-se em 27 Hope Street (no edifício onde actualmente se situa o museu madeirense). Segundo informou o jornal New Bedford Times de 30 de Junho de 1918, António Rodrigues foi ordenado bispo nesse mesmo dia, pelo Arcebispo William H. Francis, de Chicago. Por essa altura a congregação liderada pelo gaulês já contava com cerca de 1000 fiéis, o que era algo significativo para a época, dado que esse o mesmo só estaria a viver nesta cidade há 11 meses. Acrescente-se que entre os mesmos contavam-se madeirenses, açorianos, continentais e até caboverdeanos.

A primeira festa ali realizada, depois desta sua ordenação episcopal foi precisamente a do Santíssimo Sacramento. Através do anúncio da mesma, publicada n’O Popular de 18 de Julho, não podemos deixar de constatar as semelhanças com a organização da igreja católica. A publicidade da “Grande Festa em Honra do SS. Sacramento na igreja do mesmo nome Ao Norte da Cidade”, que teria a duração de dois dias, anunciava o seguinte:

“No dia 27, Sábado, das 2 às 11 horas da noite, iluminação, arraial e concerto pela Banda Portuguesa do Norte desta cidade, da hábil regência do maestro sr. Júlio Vieira Rodrigues; às 7 horas haverá vésperas solenes, sermão e bênção do SS.º Sacramento.

No dia 28 haverá missa às 8 horas e comunhão.

Às 11 horas missa cantada com três padres e sermão ao Evangelho pelo mui Rev.º Bispo A. Rodrigues, pastor da Igreja do SS.º Sacramento.

Às 4 horas da tarde sairá a procissão do SS.º Sacramento, a qual revestirá o maior brilho, comparecendo uma parte da irmandade do Santíssimo com suas opas vermelhas, à semelhança das nossas terras portuguesas, percorrendo as seguintes ruas: Hope Street, Beleville Avenue, Collete Street, North Front Street, Nash Road e Hope Street, terminando este acto religioso com a bênção do Santíssimo.

De tarde continuará o arraial e iluminação.

Vinde todos à Festa do SS.º Sacramento à igreja do mesmo nome, na rua Hope, ao Norte desta cidade de New Bedford, Mass.

A Comissão – Presidente, Eduardo Luís Rodrigues; Tesoureiro, João Alves Neto; Secretário, Manuel d’Agrela; Vogais, João Baptista Nunes e Manuel Alves.”

A 25 de Julho seguinte, O Popular voltou a aludir a esta festa, nos seguintes termos: “FESTIVIDADE – É no próximo domingo que tem lugar ao norte desta cidade a Festa do SS.º Sacramento, na igreja do mesmo nome, da qual é pastor o rev.º padre A. Rodrigues. No arraial tocam as filarmónicas American Star Band e Portuguese National Band e não apenas uma como se lê no anúncio que vai pubicado na 8.ª página. Também faz parte da comissão o sr. António Nunes e não João Baptista Nunes, como se lê do mesmo anúncio.”

Em jeito de balanço a estas duas festas, a 8 de Agosto de 1918 O Popular divulgou a seguinte breve nota na sua rubrica “Noticiário”: 

“FESTIVIDADE – Com desusado brilho realizou-se domingo último ao norte desta cidade a grande festa do SS.º Sacramento promovida pela colónia madeirense que, já no penúltimo domingo também havia mandado celebrar igual solenidade.

A concorrência, em qualquer delas, foi extraordinária, tocando no arraial, desde a sexta-feira, três filarmónicas.

Os arredores das igrejas achavam-se profusamente iluminados e os templos ricamente decorados.

Foi presidente da comissão da primeira solenidade o sr. Eduardo Luiz Rodrigues, e da segunda o sr. Frank Fernandes.”

Ficam aqui registados, em traços gerais, as principais incidências destas duas festas, com a mesma invocação, realizadas em 1918, em dois fins-de-semana seguidos, por madeirenses radicados em New Bedford, uma celebrada na igreja católica da Imaculada Conceição e outra na vectro-católica do Santíssimo Sacramento que, curiosamente, se situavam a dois passos uma da outra. Não deixa de ser interessante o verificar-se que ambas eram feitas segundo a tradição madeirense, com a decoração das ruas com arcos de verdura e iluminação, com que também eram decoradas e iluminadas as fachadas das igrejas, como ainda se continua a observar nos nossos dias. Em 1918 a animação era providenciada, tal como na Madeira, com a actuação de diversas filarmónicas, para gáudio de todos os participantes. E nas procissões do Santíssimo Sacramento, que percorriam várias ruas, incorporavam-se os membros das respectivas confrarias, ostentando as suas opas vermelhas, que os identificavam como tal. Refira-se ainda que, para além da celebração do Santíssimo Sacramento, a igreja vectro-católica com o mesmo nome também celebrava a festa do Espírito Santo e também a do Senhor da Pedra, conforme o atestam os respectivos anúncios publicados nesse antigo jornal.

No ano seguinte, 1919, voltaram a realizar-se duas festas do Santíssimo Sacramento em New Bedford, conforme o comprova a publicidade das mesmas divulgadas na colecção d’O Popular, que consultámos na íntegra.

Por fim, acerca da actuação do bispo vectro-católico madeirense António Rodrigues em New Bedford, acrescente-se, a título de curiosidade, que em Setembro de 1918 o mesmo expandiu a sua igreja com a criação dum novo templo, na Sawyer St., com a denominação de igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e a liderar a do Santíssimo Sacramento, na Hope Street, ficou o pastor Custódio da Costa Raposo, que ali esteve até 1922, ano em que essa igreja terá encerrado. António Rodrigues regressou à Madeira em 1931, após o encerramento da sua igreja na Sawyer Street, terminando assim a sua singular actuação pastoral em New Bedford, sendo a memória da sua passagem por esta cidade actualmente completamente desconhecida.

 

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