Dos EUA – sobre o vírus Covid 2016

 

 

 
Escrevo de Providence, Rhode Island, onde a situação nada tem a ver com as imagens patentes diariamente aos portugueses via TV. Nas zonas populacionais menos densas, a distância social é bastante manejável. Podemos fazer circuitos higiénicos no exterior, mantendo-nos relativamente distantes de outros transeuntes. Quem pode continuar a trabalhar online fá-lo a partir de casa. É assim aqui com a Leonor e comigo: aulas, reuniões, encontros com alunos, tudo via Zoom. Isto é, a vida restringida ao nosso Recinto Zoomlógico. Até já estive há dias presente numa sala de aula da Emory University, Atlanta, a substituir um agendado encontro presencial.
Como em toda a parte, ninguém faz ideia do amanhã e na minha universidade, a Brown, faz-se já planos para a eventualidade de o Semestre de Outono continuar online. Se for esse o caso, ao menos não seremos como agora surpreendidos por acontecimentos inesperados.
Se me perguntarem qual a minha maior preocupação face ao futuro, eu apontarei para a liderança em Washington, por ela não ser inspiradora de confiança a não ser para a vasta falange que apoia o PR (sectores dela têm foros de seita), um séquito indefectível, arraigado ao seu guru e mantendo-se impenetrável a qualquer facto ou argumento. 
Adianto que não me assiste nenhum impulso partidário, até porque o momento é crítico e transcende inteiramente esse nível. Nos meus quase cinquenta anos de vida nos Estados Unidos, não tenho memória de a Casa Branca ter alguma vez sido ocupada por uma figura tão desinteressada pelos factos, tão grosseiramente desrespeitadora das pessoas que se lhe opõem, tão narcisista e, acima de tudo, tão despudoradamente preocupada com as sondagens que lhe dizem exclusivamente respeito.
O Chefe do Executivo arroga-se a, com displicente desdém, alienar qualquer responsabilidade, culpando sitematicamente os outros por tudo o que corre mal; a não ter nenhum respeito pela verdade; a acusar os media de fake news quando só à sua conta já disse 17 mil mentiras, uma média de 22 por dia, verificadas pelos fack-checkers. Omnisciente, nega no dia seguinte o peremptoriamente afirmado na véspera. Arvora-se em médico, prescrevendo medicamentos que os especialistas não recomendam (há dias a revista New Yorker no seu suplemento humorístico, “The Borowitz Report”, sugeria que Trump estava optimista quanto à possibilidade de receber o Nobel de Medicina). E a lista poderia continuar.
Trump é um autocrata sem escrúpulos, que só não foi ainda mais longe porque as instituições americanas possuem uma centenária solidez. Todavia, tem sido óbvio que nem tudo estava previsto na Constituição nem na práxis. Nunca se esperava que um presidente pudesse agir com tão desmesurada ambição e tão ignorante desrespeito pela ciência, pela experiência acumulada, bem como pelas regras protocolares não escritas, mas claramente implícitas no papel do ocupante do Oval Office. Por isso, não é possível obter ad hoc regulamentação que atempadamente o impeça de tomar atitudes cada vez mais arbitrárias e despóticas. Daí o seu libertário eliminar dos mecanismos de controlo tradicionalmente estabelecidos para que se mantenha o equíbrio de poderes. Numa situação como a actual, em que as pessoas aceitam tomadas de posição do Governo que de outro modo exigiriam um processo mais democrático, Trump está a aproveitar-se para, em todos os níveis das estruturas políticas, despedir pessoas incómodas, subsequentemente desdenhando a sua substituição ou colocando em seu lugar Yes-Men incapazes de se atreverem a opor-se-lhe. É agir rumo a um sistema de no accountability, na mais anti-americana das atitudes, desprovido de controlo de responsabilização. Mais ainda, atreve-se a gabar-se - “Posso fazer o que quiser!” - com a mesma desfaçatez com que na campanha eleitoral proclamou que poderia matar alguém na 5ª Avenida e nada lhe aconteceria. Foi precisamente o ocorrido durante o processo de destituição. Trump recusou-se a enviar ao Congresso a documentação exigida (subpoened), além de ter aldrabado documentos, todo o processo acabando em nada. Em comparação, por uma diminuta percentagem de transgressões legais, Nixon viu-se forçado a resignar. Também comparado, o comportamento de Clinton parece hoje um ridículo pecadillo. 
Trago tudo isto à baila numa crónica encomendada para produzir um retrato do cenário norte-americano face ao Covid-19 porque o futuro não parece nada róseo. Quando ele recomeçar (há dias, numa reunião, um colega meu falava do next future), os Estados Unidos não serão os mesmos. Pelo menos assim parece visto de hoje. A necessidade de intervenções drásticas para ressuscitar a economia vai levar a restringir-se ainda mais o processo democrático. Sobretudo se a estrutura política continuar nas mãos, pequenas mas aduncas, de Trump (na verdade, há grandes possibilidades de isso acontecer), teremos mais quatro anos de tropelias anti-democráticas, de enfraquecimento dos poderes do Congresso e até do Supremo Tribunal. Se tal acontecer, veremos transformar-se o tradicional equilíbrio dos três poderes num regime presidencial populista, aplaudido por uma massa de apoiantes, liderados por um contingente destacado de interventores nas redes sociais que triunfam espalhando a confusão, determinados a destruir, ou pelo menos desautorizar, a força cada vez mais vital do quarto poder, o da comunicação social, hoje também imensamente diminuído. Com efeito, as redes sociais actuando anonimamente espalham todo o tipo de desinformação, autoapresentada com tanta legitimidade  quanto a dos grandes jornais e cadeias de televisão, sem seguirem minimamente as regras de rigor e responsabilidade ética que norteiam os media, e que, aliás, a legislação vigente regula e sanciona.
O coronavirus não é, obviamente, o responsável por esta situação; ele veio tão-só tornar mais visível o alastrar desbragado de um outro vírus que, de certeza, não proveio da China. Esse é, sem dúvida, oriundo dos EUA e assolapou-se há três anos e vários meses em Washington. Já demonstrou à saciedade que a prometida secagem do pântano o deixou incomparavelmente mais lodoso e infestado. 
I know how to fix it! - dizia Trump na campanha eleitoral quando confontado com qualquer problema do país que lhe fosse referido. Ele sabia sempre como resolvê-lo (em inglês, consertá-lo). O país agora é que não sabe como resolver - ou consertar - este imbróglio. Mesmo que os cientistas encontrem em breve uma vacina para o Covid-19, não estou a ver cura próxima para esse outro, de 2016, ainda mais fatídico. Quer dizer, o tom prevalecente por aqui aponta para o receio sério de uma mudança de registo no rumo nacional: America, the beautiful em andante para The Beauty and the Beast.