Cabeça e Coração

 

Não sou especialista numa, nem  no outro. Mas reconheço que são os dois mais importantes orgãos do corpo humano. A cabeça e o coração. Assim como importantes são todas as funções auxiliares desta misteriosa máquina que nós somos. A cabeça é o cérebro, a inteligência, onde está concentrada a fonte de toda a nossa energia, toda a nossa capacidade de discernimento. Isto é o que eu penso, evidentemente, e o que o meu vizinho pensa, pode não estar de acordo. Mas a inteligência é um pau de dois bicos, ainda segundo eu. E tanto pode dar para bem como para mal. Há criminosos e bandidos muito inteligentes. Um bom ladrão tem de ser um ladrão inteligente. Um tipo que na Wall Street ou no Banco Espírito Santo pensou em sacar uns milhões à custa de cidadãos menos ágeis tem de ser um tipo inteligente. Tem de saber coisas.
O coração - também segundo eu, a quem a inteligência não sobra - é o orgão da sensibilidade. De ser bom ou mau, segundo os preceitos do meu “PÁ da Galileia”. Por conseguinte, os dois órgãos têm de trabalhar  em perfeita sintonia. Em conjunto. A compasso. Como na música. Uma inteligência brilhante sem um “bocado” de coração não dá. 
E foi isto que eu notei, quando esta manhã lia o artigo do Prémio Nobel, Paul Krugman. Este professor de economia podia fazer um exame de médico, frio, espécie de autópsia aos males e problemas que afetam a sociedade e ponto final. Mas decerto  o seu coração não permite os  dítames específicos e indiferentes da sua especialidade. Ele indica o que está fora de balanço, segundo os princípios humanísticos que enformam a sua pessoa. Não sei se é religioso ou agnóstico, mas o sentido de justiça que eu noto em tudo o que escreve, não é diferente do diapasão que afina a viola do Papa Francisco.
Na crónica de hoje, ele rebate a teoria dos políticos da asa direita, os quais opinam que dar mais aos ricos e menos aos pobres é bom para a economia. E que a mesma faca que corta os impostos aos ricos deve cortar as senhas de comidas aos pobres, aos desempregados,  aos velhos e às crianças. E que é por este meio, de dar aos que têm mais e cortar aos que têm menos que as sociedades progridem. Isto para mim é um bicho de sete cabeças, pois o meu aparelho pensante julga que uma sociedade mais justa, mais humana e mais cristã, se obtém com uma receita precisamente ao contrário. E nisto concordam os meus amigos Krugman e o da Galileia. E provavelmente o economista nem sequer pertence ao nosso clube. 
Mas será que o pensamento da direita se está encaminhando um bocadinho para o centro? Diz ele:
“No princípio desta semana, um novo ponto de vista àcerca da desigualdade obteve o apoio da Standard & Poors, a agência de rating que publicou um novo relatório, o qual apoia o ponto de vista de que a grande desigualdade social é um travão no crescimento da economia. A agência sumarisava  as pesquisas feitas  por outras instituições. 
E isto demonstra a aceitação do pensamento que está ganhando popularidade no país, de que a alta desigualdade económica - de confortar os confortáveis e afligir os aflitos - é bom para o crecimento económico”. 
E Kruggman acrescenta que à mesma conclusão acaba de chegar o Fundo Monetário Internacional.
Seria bom, pois, que a direita radical, os irmãos Coch, o Tea Party, e a maioria dos bilionários da Wall Street adicionassem à sua  inegável inteligência negocial uma pitada de canela do Coração.
E esta nossa nação de nações seria mais próspera e feliz. 
E até para todos nós, uma pitada de canela do nosso orgão vital não deixará de nos tornar mais bonitos e humanos, sem precisar de  remédios da botica. 
E aqui, fica bem um amén.