Recolhi a cara

 

No mundo da comunicação, há a que se faz de cara ao léu, ou de cara escondida. Há escritores, historiadores, poetas que conhecemos pelas palavras e as letras que nos deixaram e de quem nunca vimos o rosto. Era bonito, era feio, careca, com bigode? E a preservação deste mistério, de falar por detrás da cortina, obriga o leitor a imaginar a figura da pessoa que lhe fala. A palavra escrita e a rádio são penhores deste mistério, desta curiosidade de imaginar a pessoa que nos fala, que nos diz coisas que estão de acordo com a nossa maneira de ser e de pensar, ou provocam a nossa indignação e desacordo.

Quando com 25 anos comecei a fazer rádio, no recuado ano de 1950, quando as pessoas que me conheciam apenas pela voz, me encontravam de corpo inteiro, vivo e a mexer, diziam que me julgavam uma pessoa mais velha do que era na realidade. Esta era a impressão que as minhas falas e conceitos haviam criado na sua sensibilidade. Não sei se de acordo ou desacordo com o que eu dizia.

Este mistério de imaginar as pessoas que nos falam por detrás da cortina das ondas hertzianas foi desfeito pelo milagre da televisão. Agora não há mais mistério. O falador apresenta as fuças ao respeitável público e diz de sua justiça, com todos os atributos estéticos com que a natureza o dotou. E quem o vê por alguns anos a fio, vai notando os estragos que o tempo vai cavando na sua figura. Já notaram o envelhecimento progressivo do Presidente Obama? Já notaram as rugas que enfeitam o rosto da senhora Clinton, que os cosméticos já não conseguem ocultar? E os cabelos malucos do provável próximo chefe de todos nós? E as copiosas plásticas de algumas das madames que nos falam de palanque?

Ora eu, com os meus 95 feitos e medidos, julgo ter dado já o meu espetáculo, para além do tempo que me foi dado e ser tempo de dar o meu lugar a outro rapazote de 25 anos, que venha lá das nossas terras, de sangue na guelra, pronto a dizer o que sabe aos seus irmãos da diáspora. E por isso tomei a decisão de me despedir dos portugueses que faziam o favor de me ver e ouvir, todos os sábados e domingos, no Canal Vinte da nossa TV, já por uns anos bons a esta parte.

Desta maneira decidi tirar umas semanas de lazer, espreguiçado ao sol lá pelas areias  da Flórida. Não vou mexer no computador, essa invenção maravilhosa sem a qual eu não poderia comunicar com vocês. E depois, quando as neves deixarem de cair cá pela Nova Inglaterra regressarei a penates, aos meus pardais e ao meu quintal, onde deixo os meus alhos já com palmo e meio de altura. E se houver inspiração, “cronicarei” alguma coisa para os jornais de papel e tinta e os sonhadores que os fazem e continuam a bater-se para os não deixar morrer.

E enquanto lá pelo sul, não perderei os programas dos prégadores evangélicos, querendo aplicar, nestes dias de guerra e fanatismo, os costumes e visões místicas de antanho, quando a Terra era o centro do universo, o Sol uma fogueira de aquecer, a Lua uma candeia e as estrelas, vélinhas de alumiar à noite. Tudo isto entermeado com visões do Apocalipse e do Harmagedon e da segunda vinda do meu PÁ da Galileia. E enquanto os sonhadores celestes vão divagando sobre o fim do mundo e arredores, as bestas do Apocalipse andam já desenfreadas, lá pelas “terras santas” do Oriente Médio, matando, estripando e degolando, tudo para honra e glória do seu deus.

E para conservar a sanidade mental não deixarei de ter à mão, diariamente, o meu querido New York Times.