O Padre, o Cão e o Taxista

 

 

Não pretendo fazer aqui a apologia do Padre Castelo, de quem já falei algumas vezes. Ele não me encomendou o sermão. E se aqui me refiro a ele é por uma espécie de simpatia humana pelo Vigário de Santo António, de Falmouth, no Cape Cod e pela sua veia humorística. A actuação deste simpático homem de igreja, parece estar em sintonia com a minha maneira particular de estar no mundo e de ver as coisas. E porque ele me tem feito rir todas as vezes que assisto à sua missa, apetece-me transmitir aos meus leitores e ouvintes, uma réstea dessa electricidade  de boa disposição que ele transmite ao povo que enche completamente a sua igreja, nas três ou quatro missas do fim de semana. Enquanto centenas de igrejas têm fechado por falta de fiéis, a igreja de Santo António precisa é de ser aumentada. Se formos cinco minutos mais tarde, é difícil encontrar um assento e ter-se-á de ficar de pé, encostado à parede.

A igreja de Santo António, com o seu cemitério anexo, foi construída pelos imigrantes açorianos que ali  chegaram há mais de um século, para trabalhar na cultura dos morangos e cranberry e na pesca. No cimo do altar mór, lá está o escudo das cinco quinas, a lembrar que ali também é Portugal. E no vitral de uma das janelas, pode ver-se um alvião, uma espécie de enxada para cavar na pedra, que só existe na ilha do Pico.

As anedotas do Padre Castelo são parte do seu ritual, e se ao Evangelho ele aponta os ensinamentos do Mestre - comida para pensar - ele inicia sempre o culto com uma pílula de boa disposição. E tenho olhado como novos e velhos ali esquecem os problemas da vida, para rir abertamente do humor do padre Castelo. Será aquele, para muitos, talvez, o único sorriso da semana. Um momento para esquecer os problemas  e sorrir com o caricato de situações porque todos nós passamos. Estou certo que se Cristo ali estivesse não deixaria de sorrir também.

Uma das últimas anedotas contadas pelo padre Castelo foi assim: Um homenzinho, dono de um cão a quem tinha muita amizade - provavelmente era o seu melhor amigo - entrou um dia na reitoria, perguntando ao padre, se podia dar um enterro condigno ao seu querido animal, pois queria sepultá-lo com uma cerimónia religiosa pela sua alma. O padre procurou dissuadi-lo, dizendo: Não meu amigo. Nós aqui só damos enterro de igreja às pessoas humanas e não aos animais. Mas o senhor vá aí pela rua abaixo e vai encontrar muitas igrejas de várias religiões e eles decerto vão fazer um enterro condigno para o seu cão. Vá, que eles fazem rezas, cantam e tem até cemitérios próprios para animais de todas as qualidades.

O homenzinho ficou dececionado por não poder dar um enterro católico ao seu cão,  perguntou ao padre: O senhor acha que eles poderão fazer uma cerimónia bonita com mil dólares? Ao ouvir isso, o padre parou, arregalou os olhos, pôs-lhe a mão sobre o ombro e disse: “Ó meu amigo! Porque é que o senhor não me disse  logo que o seu cão era católico?

Uma gargalhada geral e prolongada, desde o soalho às ripas do tecto estralejou na velha igreja de Santo António.

E assim, com uma graça inocente, em que punha em causa a sua própria sotaina, o padre Castelo havia obrado o milagre de pôr a rir todos  os seus fregueses.

Outra história do padre Castelo: Um bispo foi de visita à ilha da Madeira e contratou um táxi, para dar volta à ilha. A certa altura da viagem o condutor despistou-se, numa curva, o carro cai pela serra abaixo, ambos morreram e vão para o céu. O anjo que estava de serviço, abriu a janela e mandou-os sentar num banco antes de lhes dar entrada no Céu. Depois de esperarem algum tempo vem um anjo ao postigo, manda entrar o chaufer e diz ao bispo para esperar a sua vez. O bispo ficou contrariado, resmungando, pois o chaufer já estava lá dentro e ele continuava à espera. Depois de muito esperar, às tantas, levanta-se, bate ao postigo e pergunta ao anjo a razão porque o estava fazendo esperar, dizendo: Então eu sou bispo, e estou aqui à espera há mais de uma hora, e o meu chaufer  já está lá dentro? Isto é uma falta de respeito por um bispo que devia entrar primeiro que o chaufer.

E então anjo porteiro explicou: “A razão é simples. É que, quando o chaufer guiava naquelas estradas perigosas, toda a gente, com medo, rezava. Mas quando o senhor prégava, toda a gente dormia”.

E toda a gente riu com a graça benta do padre Castelo.