Conversa só comigo

 

Todos nós conversamos só connosco, às vezes. Somos um invólocrosinho misterioso que passa a vida inteira procurando compreender-se, o que não é tarefa fácil. No entanto, é num desses momentos de interiorização que surgem as ideias criadoras. O tal criativismo de que hoje tanto se fala, até no nosso “pobre” país de nascença, a braços com problemas de légua e meia. Claro, o criativismo de que falo aqui não é tão ambicioso, mas de cariz poético e pessoal. É um criativismo brando, maleável como o barro, ou duro como o mármore em que Miguel Ângelo procurou encontrar a essência do humano e do Infinito. Porque ambas as coisas andam muito baralhadas.
Eu sou apenas um tocador de flauta sertanejo, ou um frustrado cantador ao desafio, que passa a vida sem desafiar coisa nenhuma, ou alguma, como seria mais correto. Mas no meu caminho vou encontrando incidentes que desafiam a minha idiossincrasia. Como esta manhã. Há mais de um ano, julgo eu, que lhe não acenava um bom dia, através da larga vidraça do seu gabinete de trabalho. Houve anos a fio em que este ritual se repetiu, dia após dia, sem falhar um que fosse. Haviamo-nos conhecido com menos 50 anos cada um. Agora, com filhos, netos e bisnetos, mas a chama da amizade desinteressada, nunca se perdeu.
Encontravamo-nos às vezes no restaurante, ela acompanhada do seu homem, mas unca deixava de me cumprimentar com o beijinho da praxe em ambas as bochechas. Uma autêntica simpatia de criatura. E o mais interessante é nunca ter havido de qualquer das partes, qualquer assomo romântico. O seu sorriso aberto, de autêntica amizade, desarma  qualqualquer  ulterior intenção. Foi por isso que esta manhã, depois de mais de um ano de interrompido o ritual do bom dia através da vidraça, a minha amiga deixou a sua mesa de trabalho e veio à porta para me dar um beijo e um abraço “como deve ser”, como diria a mãe de Lobo Antunes.
E conversámos um pouco. E dissemos que ambos estávamos “bem  conservados”.
- Eu já cheguei aos setenta - disse a minha amiga. Com toda a franqueza lhe disse que, a ajuizar pelo seu rosto sem rugas, não lhe dava mais de 50. E que eu ia a caminho dos 97. O que ela, talvez por caridade,  disse que não lhe parecia ter mais de 75.
É interessante, quando dois velhos se encontram e, com absoluta consciência, procuram iludir-se e iludir o tempo. E foi  este  o meu “criativismo” do dia, quando, mais tarde, dava o meu passeio constitucional diário, sob a ramaria das frondosas árvores que mãos humanas ali plantaram para meu conforto há mais de um século, quando a temperatura ia já quase nos 90 graus. E para teminar, um poema:

 

 

A PALAVRA


Pela palavra me fiz homem,
Dela fiz cutelo e espada,
Ancinho, malho e enxada,
Na vinha da vida por cavar.
És, palavra, o meu cajado,
Minha muleta e anseio,
Dita com raiva ou pensada,
Interrogação ou rodeio,
Reticências, amargura,
Em noturnos sonhos sonhada
Em poesia escrita ou falada,
Ou em prosa leiga e impura.
Palavra, minha vida, meu pensar,
Meu templo, minha montanha,
Minha árvore, rocha e rio,
Meu refúgio e meu destino.
Meu bater  de coração…
És meu norte, minha estrela,
Brilhando na escuridão.
Palavra,
Minha escada de subir,
Meu passado e meu porvir,
Minha enxada ganha-pão.
Palavras, minha caneta,
Meu microfone de ferro
De palavras caldeado,
É tudo aquilo que deixo
Aos filhos da Imigração,
Quando um dia ficar calado.