Convite para almoço

 

 

Meus caros leitores e amigos, parentes, aderentes, inimigos, patrícios, compatriotas, conterraneos, músicos, lavradores, cozinheiros, padeiros, poetas, cantadores ao desafio, democratas, republicanos e gays, com estômago para receber as vitualhas de um almoço sem precisar de “tums” ou outra mixórdia qualquer, ficam convidados a participar no almoço do meu funeral, que consta de ovos mexidos, bacon, pão, e café à descrição. E como se trata do mais importante acontecimento na vida de um humilde escriba sem história, desejaria que esta minha função de despedida - em consulta com o meu ilustre PÁ da Galileia - fosse  uma festa de paz e amor - de amigos e inimigos, que me deram a honra do seu convívio e amizade - e um lembrete de que a vida neste planeta é apenas uma passagem, e que sem amor, se transforma muitas vezes  num antro infernal, e um motivo de negócio para os meus amigos sábios e bruxos de profissão, que muitas vezes se vêem e desejam para encontrar cura certa e eficaz, para as maleitas do corpo e da alma.
E como se trata de um acontecimento único na vida de alguem que amou a vida , abraçou as árvores, cantou loas  à terra, à relva, às formigas, ao sol e à lua, aos frutos do campo, aos pepinos e tomates do meu quintal, à agua,esse milagre que é meia vida, é lógico que  metesse um pouco de som e de dança, para os timaneis e timarias que vão dar os últimos adeuses. E lembrei-me dos Capitalistas, o grupo que tem  gente lá da minha “parvónia”. E se não eles, até um simples harmónio serrano faria a festa. E gostaria de ver toda aquela gente a dar o seu pé de dança em memória de alguem que falou, falou, falou, até ficar calado, porque se cansou.
Quanto à escolha do cangalheiro, vou deixar isso a quem ficar atras para fechar a porta. Quanto a mim, há pelo menos dois que me enchem as medidas. Tenho o Paulo, que me servia sempre três copos de café, quando era servente no restaurante, que deixou para ser cangalheiro. O pior é que, quando cheguei a este ponto da conversa fui informado que o Paulo é agora condutor de limousina de longo curso. O outro é o meu amigo Cabral, ex-proprietário da única loja de chapéus de homem que havia na cidade. Depois, veio o boné de pala em arco, e agora, o boné Trump, feito na China, a quem ele prometeu fechar a porta do negócio.
Resta-me desejar que alguns dos meus convidados não se cansem de esperar pelo meu último almoço, e acabem por dar a alma ao Criador antes de mim. Se for esse o caso, que a terra vos seja leve, e o almoço será realizado numa das constelações da Via Láctea.
E antes do ponto final, passo a informar que este meu último almoço, substitui aquele que eu havia planeado realizar com o objetivo de reunir dois amigos que estimo e admiro, na condição de que eles prometam estar presentes. E,
Na pedra do cemitério
Que isto fique gravado;
“Aqui jaz quem já falou,
E agora ficou Calado”.

 

 

Meu rico Santo António
Carismático alfacinha
Que pelas ruas de Lisboa à noitinha
Espreitavas os namorados…
E ficavas satisfeito
Por vê-los tão chegados… tão traquinas
Saltando as fogueiras
E roubando beijos à sorrelfa
Pelas esquinas… Estou vendo-te envolto no burel
Gozando o amor que tu não tinhas
Mas sentias dentro do teu peito.
Elas, à cabeça as cantarinhas
Eles de mãos grossas, calejadas
De voz tremida e rubor nas faces
Envolvendo-as em carícias de amor
Robusto como o chão,fresco como as alfaces.
E tu, meu querido Santo António
Ali pedias ao Deus da tua fé
Que livrasse aqueles filhos da ralé
Das tentações impuras do demónio
E que, pelo coração os unisse para sempre
Em Santo matrimónio.
Sim, meu santo alfacinha
Que a vida com amor, pode ser santa e boa…
E já agora deixa que te diga
Que antes de seres de Pádua,
Foste de Lisboa: 
Cidade do Tejo, do Fado e das Quinas
Da Mouraria e da Madragoa
Do castelo e das Sete Colinas…
Sim, meu velho Fernando de Bulhões
Saltaste a fogueira, fizeste diabruras
E exaltaste o amor que há no coração
Dos bichos e criaturas…
E tua fama foi tal, que ainda perdura.
As moças ainda rezam ao “Querido Santantoninho”
Acendem velas, fazem promessas
Para que tu não esqueças de lhes dar um maridinho.