Sexta-feira à tarde

 

 

É sexta-feira à tarde. Estou sentado ao computador e olhando o quintal. Ainda não escrevi coisa alguma para o PT. E eu estive quase disposto a dizer ao amigo Francisco, o director, que esta semana não haveria nada, e decidira ficar mesmo calado. Mas, enquanto estou vendo o que resta dos meus tomates, estão-me passando no ecran da memória e do sentir, pedacitos de impressões,  de coisas que aconteceram nos últimos sete dias (sem contar as anedotas do “Alentejano”, retiradas da internet, graças a um “blog” enviado pela falecida Fernanda Leitão, com um interessantíssimo poema-político, intitulado “Nau Catrineta”.

Mas isso é outra história. No entanto, de algumas das anedotas me servi esta manhã, como introito humorístico às notícias. Uma delas é o mítico alentejano que dorme com uma serra à cabeceirsa, por lhe terem dito que os “ares da serra”, são mais saudáveis. E agora, para alguem que é calado, julgo estar a falar já demais em coisas sem importância.

Mas voltando ao cerne da crónica que estou em processo de dar à luz, acabo de sofrer uma interrupção, pois veio-me à memória a anedota do cúmulo da estupidez: dois carecas andarem à bulha por causa dum pente. E isto prova que os “blogueiros” do Alentejo são gente de imaginação. Eu, como meio careca, nunca me aventuraria a pensar em tal. Mas vamos à vida, “que a morte é descanso”, como se diz na minha terra.

E agora, que entramos a sério na “criação”, queriamos dizer tantas coisas que nos falta o espaço e o tempo para o fazer. Para o PT, o espaço são favas contadas, e não quero abusar, pois é preciso pôr no papel as fotos coloridas  das pessoas ilustres da comunidade e eu sou apenas um “freguês de cuspe”, como se diz também na Bairrada do carrascão.

Mas afinal, em que fica a crónica? Eu queria dizer qualquer coisa importante, que ficasse para a posteridade, mas estou a ver o espaço a ir embora sem ter dito nada. Quanto ao plano de canalizar o dinheiro do Seguro Social colectivo, para milhões de planos individuais, em que cada um navega à sua maneira, tenho dúvidas. Creio que o Seguro Social não deve ser apenas um plano de cariz económico, em que cada um trata de si, e ninguém quer saber do resto. O Social Security foi concebido para ser um programa de segurança de todos, pobres e ricos, doentes ou saudáveis, abrangendo não só os trabalhadores, mas os orfãos, viúvas e incapacitados.

Há neste país, - para vergonha dos líderes e de nós todos - dezenas de milhões de americanos sem qualquer seguro de saúde, ao contrário do que se passa na Europa e no vizinho Canadá. Se caiem numa doença e têm alguma coisa de seu,  ficam na pobreza, especialmente agora, que foi aprovada uma lei tornando mais difícil abrir bancarrota. Os que preferirem o seguro pessoal ao Seguro Social, se tiverem sempre trabalho e forem saudáveis e a Bolsa não der um tombo grave, poderão lucrar. Mas se forem apanhados por uma doença física ou mental, e ficarem incapacitados, quem os vai socorrer? A Bolsa? A Bolsa, como a lotaria, só quer saber de quem ganha, não de quem perde.

E afinal, amigos, do humor passei ao sério, e agora não posso voltar atrás. Porque a vida é mesmo assim. Às vezes ri-se e outras vezes chora-se. E já que estamos nesta última fase não se podem esquecer algumas das barbaridades ocorridas esta semana. Que o homo sapiens que nós somos, continua a ser uma experiência em progresso. No Iraque, um terrorista suicida matou mais de quatro dezenas de shiitas que estavam num funeral, e feriu mais de cem outros. Cantámos vitória com a vitória da democracia nas últimas eleições iraquianas,  mas a democracia é uma flor que não se vai dar bem nas areiras bíblicas do Oriente Médio.

E vocês sabiam que é impossível entrar com uma tesourinha das unhas no avião, mas que um terrorista americano ou estrangeiro tem liberdade para comprar uma metralhadora no Wall Mart?

As milícias terroristas americanas da extrema direita estão armadas até aos dentes para defender o fascismo racista e os outros também, pois os vendedores de armas não lhe perguntam quem são, porque é contra a lei.

E são estas contradições que às vezes me põem o sangue a fervilhar. Ver uma nação tão grande e tão boa como esta nas mãos dos lobbys das armas. O dinheiro é como um vírus perigoso que está corrompendo esta democracia.

 

 

Esta coisa que eu tenho...

 

Esta coisa que eu tenho

aqui no peito

e que não sei explicar

nasceu comigo.

Sinto tremuras longínquas

perdidas na história do tempo

na raíz do átomo

que se fez vida

e lateja dentro do meu sangue

irmão da água.

 

Que a irmã lua me ajude a explicar

o milagre do meu sentir.

Que a irmã pedra me diga

se no centro das coisas

estamos todos

presos do mesmo destino.

 

Borboletas enamoradas

da mesma luz.

Grilhetas amarradas

ao mesmo pelourinho

onde o amor e o desejo

são a força centripeta

que evita a destruição

do Universo.

 

Isto que eu sinto aqui no peito

é a força programada

em milénios de caldeações

e alquímias

que me deixou para sempre

perguntando

por mim

para saber quem sou

ou donde vim.