Legal e Moral

 

 

Quando não tenho assunto mais terra-a-terra converso com o meu PÁ da Galileia. Faço-lhe perguntas que não ousaria fazer a um qualquer bípede humano. Ele sorri, às vezes responde, outras vezes fica-se  apenas pelo sorriso. E eu entendo, e Ele entende. Isto é, entendemo-nos mutuamente. Porque falar sem um interlocutor, não dá jeito. E esse alguém pode ser de carne e osso ou habitante de qualquer galáxia do Cosmos. E como o meu PÁ tanto está aqui como está lá, é-me conveniente falar-lhe, quando Ele passa aqui por casa.
Às vezes penso que o real e o imaginário são   uma e a mesma coisa. Simplesmente uma é de pedra e outra é pensamento, imaginação, fé, fantasia e tudo aquilo que a misteriosa caixinha da nossa cabeça engendra constrói, destrói, modifica, falsifica, inventa, nega ou  navega no espaço, como eu estou fazendo neste preciso momento. 
Acham que eu seria mais útil se estivesse construindo uma caixa, ou uma cadeira, em vez de estar aqui a inventar uma construção de palavras que pode ser destruída com um simples sopro de vento? Que valor tem esta construção imaginária ao pé de uma mesa, uma cadeira, uma roda ou um pião?
Mas, já que o meu Eu amanheceu  hoje com a mania de dizer coisas, não vou perguntar, mas dizer ao meu PÁ aquilo que preocupa a minha caixinha dos segredos. 
Falar, por exemplo, do que é legal e moral nesta democracia. No meu humano modo de ver, esta “religião” laica, que é a Democracia, parece ser a única esperança de evitar o Harmagedon, para que se preparam os fanatismos religiosos. Dar ao animal humano a liberdade necessária para viver  e deixar viver em paz, na reserva biológica, respeitando as leis da Natureza, parece-me ser este o único meio de evitar o delírio fanático do fim anunciado.         
O que me preocupa neste momento é a corrupção da Democracia pelo dinheiro. E isto com a colaboração do mais alto tribunal do país, ao autorizar que o dinheiro possa comprar livremente o poder. 
Por exemplo, o dinheiro foge daqui, como foge de Portugal, para as ilhas Caimão, para não pagar imposto. Aparentemente a coisa é legal, porque  ninguém vai para a cadeia por causa disso. E esta traição ao espírito da Democracia, pode ser-lhe fatal. Se este processo de fugir aos impostos é legal não deixa de ser imoral. Mas a lei moral é alguma coisa que urge respeitar? E é aqui que entram em cena as tais diabólicas contradições. A América parece-me que é o único país que orgulhosamente declara no topo do seu dinheiro a sua confiança em Deus. “In God We Trust” — Em Deus nós confiamos”. Infelizmente, na prática, seria o mesmo que dizer: “Nas Ilhas Caimão é que nós confiamos”.
Tem sido difícil pôr em prática o idealismo simbólico. Alguns dos próprios fundadores desta nação, que na Constituição declararam a igualdade de todos os seres humanos perante a lei, eles mesmos mantinham escravos ao seu serviço. Ainda quando cheguei à América, milhões de americanos nascidos neste país não podiam comer nos mesmos restaurantes, dormir nos mesmos hotéis, ou viajar na frente dos autocarros. Alguns estabelecimentos tinham à entrada: “Não são admitidos cães, judeus ou negros.”
Existem dois tipos de ideologia neste país, e mais ou menos, em todos os países. Há os que aceitam o governo como poder legítimo em defesa do povo comum e não apenas de uma determinada classe. Mas há tambem o grupo dos que interpretam o governo, não como solução, mas como “problema”. 
Se o governo  procura proteger os direitos dos mais fracos, mais pobres, doentes ou incapacitados, isso é contestado. Contestado dentro da lei democrática, sem dúvida. No entanto, parece-nos que uma sociedade “justa”, de acordo com o “In God We  Trust”, não pode ser apenas “legal” mas  também “Moral”. Mandar o dinheiro para as ilhas Caimão pode ser legal, mas, segundo a cartilha do meu PÁ da Galileia, não deixa de ser “imoral”.
E no fim desta construção de palavras não acham que seria  mais útil se tivesse construído uma mesa, uma cadeira, ou apenas uma caixa, para guardar o dinheiro, e escrever-lhe na tampa ‘IN GOD WE TRUST’?