Dois mártires (ou talvez três)

 

 

 

 

Na campa, sem nome sequer, apenas três dígitos: 339.

 

Há sempre um português ao barulho. Mas, como ele só entra ao final da história, comecemos então pelo princípio. 15 de Abril de 1920, South Braintree, Massachusetts. Dois funcionários de uma fábrica de calçado, que transportavam consigo o salário semanal de quinhentos funcionários, uma grossa maquia de mais de quinze mil dólares, foram assaltados e mortos a sangue frio por dois atiradores impiedosos. Um Buick azul aguardava os assassinos, com dois ou três cúmplices dentro. Dois dias depois, o carro foi encontrado num local chamado Manley Woods. O chefe da polícia, por razões que nada tinham que ver com as provas recolhidas, decidiu que os responsáveis pelo crime eram anarquistas italianos, vá-se lá saber porquê. Com esse fito, descobriu que perto do local onde o Buick fora encontrado morava Ferruccio Coacci, um italiano de simpatias extremistas. Era estranho que um criminoso estacionasse perto de casa um automóvel roubado, usado num assalto com dois homicídios brutais, mas nem isso demoveu o chefe da polícia. Pouco depois, concluiu-se que Coacci não podia ser o autor do crime, pois tinha há bom tempo regressado à Itália natal. Na sua casa vivia agora outro italiano, Mario Budda, e, para abreviar explicações, na sua companhia foram detidos dois homens, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti. Na altura da detenção, a bordo de um eléctrico, transportavam armas, munições de vários calibres, publicações anarquistas. Pior do que isso, eram ambos italianos. Fechava-se o círculo, caso encerrado – ou talvez não.

À distância, é difícil alcançarmos o impacto que o processo de Sacco e Vanzetti teve em todo o mundo. Talvez tenhamos uma pálida noção deste caso, um dos mais famosos do século XX, se soubermos que até na longínqua Argentina uma marca de cigarros foi baptizada Sacco y Vanzetti, e o mesmo aconteceu com um célebre tango. No YouTube, aliás, existe um vídeo com Dulce Pontes a interpretar The Ballad of Sacco e Vanzetti, da autoria de Ennio Morricone, que Joan Baez vocalizou – e celebrizou – nos alvores da década de 1970. Se ainda hoje o caso Sacco e Vanzetti é discutido com calor e paixão, imagine-se o que terá sido nos anos 20, numa época em que a América vivia apavorada pelo espectro do Grande Terror Vermelho e o Congresso aprovava leis sobre leis que perseguiam implacavelmente as mínimas suspeitas de simpatias comunistas ou anarquistas. Na altura, quem criticasse a acção da Cruz Vermelha à mesa de jantar, em casa, corria o risco de ser encarcerado por muito tempo, e um pacato clérigo do Vermont foi condenado a quinze anos de prisão por distribuir meia dúzia de panfletos pacifistas. Nas fábricas, muita agitação e fúria, com os sindicatos ao rubro, e, a dada altura de 1919, dois milhões de trabalhadores americanos estavam em greve. Algumas organizações mais radicais, como a Industrial Workers of the World, a IWW, foram alvo de gestos inauditos: em Centralia, no estado de Washington, um empregado da IWW foi arrastado na rua por uma multidão em furor, que o espancou e lhe cortou os genitais. Quando implorou por uma morte rápida, levaram-no até a uma ponte da cidade, penduraram-no por uma corda e deram-lhe um tiro. A sua morte foi considerada suicídio e ninguém foi acusado.

Em resposta a este e outros ataques, proliferavam os atentados à bomba, nas ruas das cidades prósperas ou através de encomendas postais, com destinatários selectos: políticos de nomeada, governadores e congressistas, grandes milionários como John D. Rockfeller ou J. P. Morgan, juízes de várias ordens, incluindo o presidente do Supremo Tribunal. A casa do procurador-geral, Mitchell Palmer, foi arrasada por um potentíssimo engenho explosivo que por pouco não vitimava um vizinho que o tempo tornou famoso, o então secretário adjunto da Marinha Franklin Delano Roosevelt. O procurador Palmer saiu ileso, mas com a convicção reforçada de que a América estava ameaçada à séria. Começou então a dar ouvidos a um jovem e inflamado assessor do Departamento de Justiça, J. Edgar Hoover, o homem que anos mais tarde lideraria com mão de ferro o FBI, e que já na altura tinha a absoluta certeza de que estava iminente um ataque em larga escala contra as instituições do país, engendrado por uma vasta conspiração de judeus, comunistas e outros vermelhos.

Foi este o ambiente que marcou o julgamento de Sacco e Vanzetti, e a sua condenação à morte na cadeira eléctrica. Ainda hoje é duvidoso se eram culpados ou inocentes, mas investigações recentes vieram mostrar que nalguma coisa má terão estado envolvidos. Ou, como diz Bill Bryson em Aquele Verão, “Sacco e Vanzetti podem não ter sido tão inocentes como a história quis torná-los.” Uma coisa parece certa: Nicola Sacco era amigo íntimo de Carlo Valdinoci, o malogrado bombista que atentara contra a casa do procurador Palmer e, depois desse ataque, a irmã de Valdinoci foi viver para casa da família Sacco.

O que impressiona em todo o caso não é tanto a culpabilidade ou a inocência de Sacco e Vanzetti, mas a ausência de provas sólidas que permitissem ligá-los ao crime por que foram condenados, o assassinato dos dois funcionários da fábrica de calçado do Massachusetts. É certo que, quando detidos, deram respostas embrulhadas e não foram capazes de explicar o que faziam a viajar de eléctrico com pistolas carregadas e várias munições, para não falar da propaganda anarquista. Mas também é certo que os dois mal falavam inglês e, pior ainda, pouco compreendiam do que lhe diziam, para não acrescentar que o júri ficara muito mal impressionado por Vanzetti ter afirmado que era anarquista e que, por causa disso, fugira para o México para não ir à guerra. Em 1977, Michael Dukakis, governador do Massachusetts e futuro candidato presidencial, emitiu uma histórica proclamação em que declarou a inocência dos dois italianos e instituiu o Dia em Memória de Sacco e Vanzetti. Melhor dizendo, Dukakis não os inocentou nem afirmou que a sua condenação final tinha sido injusta. Sustentou, isso sim, que o processo fora marcado por temores e preconceitos de vária ordem – preconceitos político-ideológicos, desde logo, mas também ideias feitas contra os imigrantes, em particular os de origem italiana – e que o sistema judicial não lhes dera as devidas garantias de defesa, nomeadamente em sede de recurso. É um facto. Em todo o caso, importa lembrar que Sacco e Vanzetti não foram dois desgraçados executados sumariamente sem garantias de defesa, às escondidas, pela calada da noite. A opinião pública mundial mobilizou-se a seu favor, a Casa Branca recebeu protestos de vários líderes estrangeiros, incluindo da velha Europa, intelectuais de nomeada tomaram o partido dos italianos (Upton Sinclair, John Dos Passos, Katherine Porter, Dorothy Parker, Robert Benchley, etc.) e entre a data de condenação e a morte mediaram seis anos, com vários recursos e apelos. O eminente jurista Felix Frankfurter professor de Direito em Harvard e futuro juiz do Supremo Tribunal, escreveu uma longa e devastadora crítica do processo, publicada com enorme destaque nas páginas da Atlantic Monthly. Mais decisivamente ainda, o governador do Massachusetts, Alvan Fuller, teve as maiores dúvidas na condenação, ponderou amadurecidamente nela, fez a sua investigação particular, inquiriu jurados e testemunhas, nomeou uma comissão de três notáveis – Abel Lowell, presidente da Universidade de Harvard, Samuel Stratton, presidente do MIT, e o juiz aposentado Robert Grant – para avaliarem formalmente se os dois anarquistas tinham tido um julgamento justo e se deviam ser executados. Foi o parecer desta comissão, ao concluir que não havia razões para adiar a execução de Sacco e Vanzetti, que acabou por ditar o seu destino.   

Agora, o português. Chamava-se Celestino Medeiros (por vezes mal grafado como “Madeiros”), era natural dos Açores, e estava no corredor da morte por causa de outro crime, o homicídio do caixa de um banco. Em 1925, emitiu uma confissão em que assumia a autoria dos crimes por que eram acusados Sacco e Vanzetti. “Confesso ter participado no crime da fábrica de sapatos de South Braintree e que Sacco e Vanzetti não participaram no referido crime”, escreveu. Interrogado, foi vago na descrição de pormenores cruciais do roubo e do homicídio – a hora em que tivera lugar, por exemplo – e o juiz descartou a sua confissão. O governador do Massachusetts, no entanto, não deixou de o ouvir, no âmbito da investigação pessoal que realizou sobre a condenação de Sacco e Vanzetti, mas nem isso os salvou da morte. Por razões algo obscuras, foram os três executados no mesmo dia: primeiro, o português, electrocutado por volta da meia-noite de 23 de Agosto de 1927; Sacco foi liquidado onze minutos depois, morrendo a gritar pela mãe, e às 00:18 Vanzetti sentava-se na cadeira eléctrica, após ter proclamado de novo a sua inocência, em vão.   

Celestino nascera em Vila Franca, ilha de São Miguel, em Março de 1902. Com dois anitos apenas, embarcara com seus pais e irmãos a bordo do Peninsular, rumo a New Bedford, terras da América. Foi à escola, mas aos quinze anos deixou de estudar. O insucesso nos estudos, dizem, deveu-se a um problema de visão, provavelmente derivado de epilepsia. Ao que parece, ficava cego durante longos períodos, e tinha “brancas” constantes, mas tudo indicia que, ao contrário do que alguns pensaram, não tinha problemas mentais e apresentava um nível razoável de inteligência. Órfão de pai, por volta dos catorze anos já tinha um cadastro preenchido, com doze detenções e outras tantas condenações. Aos 17, entrou à séria no mundo do crime, com a ajuda de um comparsa e de duas mulheres, uma das quais sua irmã, que se faziam passar por voluntários dos peditórios da American Rescue League para defraudarem os incautos. Foram apanhados em Maio de 1920 e, menos de um mês depois, Celestino foi detido quando assaltava uma loja à noite. Entre entradas e saídas da casa de correcção, terá sido nesse período que, a crer na sua confissão, Celestino assaltou e matou os infortunados funcionários da fábrica de calçado. Verdade ou não, o certo é que em 1921 o açoriano apareceu aos amigos com uma larga soma de dinheiro, que alguns historiadores dizem ser produto do roubo no Massachusetts. Com as massas, viajou pelo Texas, pelo Minnesota, pelo México, na festiva companhia de uma artista de circo, e regressou, claro está, na penúria completa. Em 1923, voltou a New Bedford, tentou estabelecer-se como empreiteiro, construiu algumas garagens, mas achou que aquele trabalho rendia pouco. Empregou-se então como motorista de um cabo-verdiano, dono de um estabelecimento de diversão nocturna, e começou a conviver de perto, muito perto, com uma das meninas do dancing. A moça, de seu nome Tessie, vivia apavorada com as maldades do Medeiros, que se punha deitado na cama a disparar para as moscas do tecto com revólveres de calibre 38 ou 45, isto quando não lhe dava para alvejar os gatos da patroa, por puro e maldoso divertimento. Confusões sentimentais, tentativas de fuga com a mulher do patrão, zaragatas à farta, um grande assalto ao First National Bank. Nessa jornada, Celestino e os seus cúmplices matam o caixa do banco, o açoriano acaba por ser capturado poucos dias depois na companhia de dois conterrâneos, Mingo e Pacheco, quando se encontravam hospedados no Hotel Zack, em Providence. Preso, condenado à morte por homicídio em primeiro grau, já pintavam as paredes da sala de execução quando Celestino decidiu falar, assumindo a autoria dos crimes de Sacco e Vanzetti. Talvez tenha sido um expediente para ganhar tempo, mais uns anos de vida enquanto os recursos iam e vinham para trás. Não se sabe. O que se sabe é que foram os três mortos no mesmo dia, com intervalos de minutos, vitimados por uma corrente eléctrica de milhares de volts. Anarquistas, Sacco e Vanzetti recusaram a extrema-unção. Confuso e aturdido, Medeiros fez o mesmo, preferindo morrer sem os últimos sacramentos (mas, ao contrário dos italianos, em greve de fome, comera à farta nos dias e nas horas precedentes). O seu corpo foi entregue à família, que o transportou para uma funerária de New Bedford, onde alguns curiosos o foram ver, nada mais. As atenções do momento concentravam-se nos dois italianos, os mártires libertários famosos em todo o mundo, e o português, obviamente, foi esquecido. Uma vida curta, 25 anos. O mayor ofereceu-se para pagar as despesas do funeral e do enterro, mas mais tarde descobriu que a mãe de Celestino até tinha uma casa e que a família Medeiros não era tão pobre como se pensava. Em resultado disso, a oferta foi suspensa e Celestino Medeiros teve enterro de indigente. Foi sepultado no talhão dos pobres do Pine Grove Cemitery. Na campa, sem nome sequer, apenas três dígitos: 339.

 

- António Araújo, professor de Direito na Universidade Católica e assessor do Presidente da República Portuguesa