Concílio Vaticano II: O primeiro concílio verdadeiramente ecuménico

 

 

 

 

Um concílio não é mais do que uma assembleia de prelados da Igreja, reunidos a fim de deliberar sobre questões da doutrina ou da disciplina eclesiástica. O primeiro ocorreu a pedido do imperador Constantino, em Niceia no ano de 325, com a participação de mais de duzentos e cinquenta bispos, maioritariamente da Ásia e Egipto.

Vários concílios se seguiram, uns mais importantes que outros, mas não podemos avançar sem antes fazer referência ao importante momento de mudança no seio da Igreja como foi a Reforma no século XVI. Por esta altura a cristandade europeia atravessava um período particularmente delicado. Sucederam-se apelos de reforma das instituições e da moral eclesiástica. A crescente afirmação do poder régio a que se assistiu por toda a Europa, acentuou as tendências de carácter nacional opostas à ideia de uma comunidade cristã universalmente submetida ao poder do Santo Pontífice. Assim a Reforma foi um movimento religioso nascido na Alemanha sob o impulso de Lutero, que com diferente expressão afectou toda a Europa. Defendeu uma profunda transformação nas instituições, doutrina e práticas da Igreja e acabou por dar origem à ruptura da unidade da confissão cristã, que se traduziu em catolicismo e protestantismo.

Como resposta a Igreja Católica proporcionou um novo concílio, o de Trento que reforçava a obediência à Santa Sé, a criação do catecismo romano, do missal romano e do índice de livros proibidos. Pelos seus decretos de cariz dogmático e pastoral, o Concílio de Trento determinou a história do catolicismo até ao Concílio Vaticano II.

No século XIX o Concílio Vaticano I (1869-1870) a fim de defender o papado, que se sentia ameaçado com os valores da Revolução Francesa; com a emancipação do homem de qualquer tutela religiosa; a ingerência do Estado na vida da Igreja e na gestão dos seus bens e o evolucionismo científico, proclamou o dogma, controverso, da infalibilidade papal. Na época da secularização, a Igreja teve de contar com a afirmação de um estado laico caracterizado por um regime de separação de poderes, mais ou menos rígido, entre aquele e as diferentes confissões religiosas.

O século XX foi marcado por duas Grandes Guerras e o clima de contestação da década de 60 provocado pela Guerra Fria acelerou o declínio da crença religiosa e da influência da Igreja. O comunismo e os regimes socialistas ganharam terreno e a prosperidade económica reforçou a fé no progresso material.

Indiferente à perda de influência, a Igreja Católica Romana continuou agarrada à ortodoxia dos seus princípios morais e religiosos, uma atitude conservadora que contrastava claramente com os novos tempos de mudança. Interpretando os sinais dos novos tempos, o Papa João XXIII convocou o Concílio Ecuménico Vaticano II (1962-1965). Uma boa parte da doutrina social da Igreja foi reformada, tal como a sua liturgia, dando passos decisivos em direção ao ecumenismo. A Igreja tornou-se mais aberta e tolerante face a outros credos. Todavia, continuou resistente a questões que estavam no centro dos movimentos de contestação juvenis e feministas, como o controlo da natalidade, o aborto e a homossexualidade.

João XXIII pretendia que a Igreja seguisse agora o exemplo da misericórdia, em vez da condenação ou do julgamento. O Concílio permitiu que a Igreja olhasse para si e mudasse a percepção dela própria, através da renovação eclesiológica. Esta nova visão colocou a Igreja ao serviço da humanidade, do então Povo de Deus, como instrumento de paz e justiça. Usou o termo aggiornamento para traduzir a necessidade de actualização da Igreja e de que Deus está sempre presente, inclusive nos momentos cruciais da história da humanidade. O seu grande objectivo era a unidade dos cristãos e como tal reformar, ou seja, voltar ao início, seguir os passos de Cristo na construção da sua igreja.

O seu sucessor foi Paulo VI que anunciou de imediato a continuação do Concílio. Empenhou-se na reforma da Liturgia, da Espiritualidade e procurou impor a presença da Igreja no Mundo.

Outro Papa com um papel importante no Concílio foi João Paulo II. Ainda como bispo Karol Wojtyla colaborou em alguns temas, como a relação entre cristãos e judeus; a reforma da liturgia; a relação com os não-cristãos e a preparação e missão dos sacerdotes. Influenciou positivamente mais dois temas no qual resultaram a liberdade religiosa e o novo papel dos leigos na Igreja.

Pela primeira vez na história do Cristianismo teve lugar um concílio verdadeiramente ecuménico, ou seja, que reuniu clérigos de todo o mundo cristão. Participaram cerca de 2500 bispos e pela primeira vez contou com a presença de representantes das igrejas protestantes e ortodoxas.

Deste Concílio resultaram quatro constituições (Dei Verbum, Lumen Gentium, Sacrosanctum Concilium e Gaudium et Spes); três declarações (Gravissimum Educationis, Nostra Aetate e Dignitatis Humanae) e nove decretos, dos quais: Ad Gentes, Presbyterorum Ordinis, Apostolicam Actuositatem, Optatam Totius, Perfectae Caritatis, Christus Dominus, Unitatis Redintegratio, Orientalium Ecclesiarum, Inter Mirifica.

Estes documentos traduzem decisões de cariz progressista, que procuraram responder aos imensos desafios da Igreja Católica no contexto do mundo moderno. Não havia unanimidade em todas as votações, mas havia liberdade entre as opiniões.

Para mais informações leia-se A herança do Concílio Vaticano II em avaliação; História Geral da Europa: desde 1789 aos nossos dias e O Cristinanismo de FILORAMO, G.

 

 

Este texto não segue o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.

1 Licenciada em Património Cultural e mestre em Património, Museologia e Desenvolvimento pela Universidade dos Açores.