A propósito de sondagens e eleições presidenciais nos EUA

 

 

O povo americano é chamado no próximo dia 03 de novembro a exercer o seu direito de escolha para a presidência dos Estados Unidos da América, naquela que é considerada por ambos os candidatos – o incumbente presidente Donald Trump, apoiado pelo Partido Republicano, e o candidato do Partido Democrata e antigo vice de Barack Obama, Joe Biden – a eleição mais importante da história contemporânea dos EUA. Simultaneamente teremos também as eleições legislativas para a Câmara dos Representantes e o Senado, bem como para governos e legislaturas em alguns estados, que assumem igual nível de importância no rumo que o país deverá seguir.
No que se refere à eleição presidencial é bom que se diga que ambos os candidatos não reúnem consenso geral nos respetivos partidos apoiantes (há republicanos que apoiam Biden e democratas que votarão em Trump, não esquecendo os independentes), mas isso não retira a importância do ato, porque há efetivamente muita coisa em jogo nestas eleições e que são cruciais para o futuro do país.
Há na generalidade um consenso extraordinário entre cientistas políticos, historiadores, diplomatas, funcionários da segurança nacional e outros especialistas de que efetivamente estas eleições assumem uma importância que atingem portentosos padrões históricos. Na realidade, o que está em jogo vai muito além disso, tendo em conta o lugar central que os EUA hoje ocupam no mundo. As diferenças entre ambos os candidatos, refira-se, são abismais, com Biden a assumir-se como o “candidato que quer recuperar a alma americana”, estreitar as relações com os velhos aliados da Europa, unir o país profundamente divivido no que se refere às questões raciais e noutros importantes temas da atualidade, como sejam o clima, a saúde e apostar numa nação mais democrática, solidária e aberta ao mundo e no regresso à mesa com os outros países nas mais diversões questões, nomeadamente as climáticas. 
Para muitos, o atual inquilino da Casa Branca já causou muitos danos às instituições democráticas deste país, especialmente na forma como tem lidado com esta pandemia do Covid-19 e com os recentes tumultos originados pela violência policial, que atingiram os níveis de violência e desordem. Por outro lado, é bom que se diga que as cidades e estados têm a sua própria autonomia e a forma como lidaram com diversas questões, nomeadamente esta da pandemia, deixuo muito a desejar. A culpa não é apenas na falta de coordenação nacional na tentativa de travar o aceleramento da pandemia, é também na forma como algumas cidades e estados agiram, o mesmo se diz em relação às revoltas violentas que resultaram na destruição de propriedades e em fatalidades. Há quem afirme que os democratas fizeram um aproveitamento político de tudo isto, quando deveriam ter assumido uma ação mais firme e forte demonstrando solidariedade e união nacional.
Por seu turno, Donald Trump aposta forte na recuperação económica pós-pandemia, uma vez que a economia dos EUA estava de vento em pompa antes deste surto do Covid-19 e o começo de 2020 reservava boas perspetivas para o atual presidente norte-americano, que tinha na sua economia forte o grande cavalo de batalha para a reeleição. Muitos economistas apontavam para uma recessão em 2018 e 2019, mas tal não aconteceu, registando-se sim níveis baixos de desemprego e crescentes índices de popularidade do atual inquilino da Casa Branca, que já “esfregava” as mãos de satisfeito pela situação favorável à sua reeleição, embora as sondagens não o demonstrassem claramente.
Mas de repente, tudo mudou. Houve uma pandemia e o desencadeamento de protestos antirraciais em quase todo o país, o que na opinião de alguns especialistas foram dois factores determinantes para a queda de popularidade de Trump, de tal forma que nas sondagens mais recentes o presidente está em clara desvantagem para o seu oponente democrata, numa diferença de mais de oito pontos percentuais.
É verdade que na última eleição presidencial de 2016, entre Trump e Hillary Clinton, as sondagens apontavam para uma vitória da esposa do antigo presidente Bill Clinton e o resultado foi o que se viu, embora no voto popular Hillary tivesse reunido maior número de votos, sendo derrotada no sistema do colégio eleitoral, tal como acontecera anteriormente com George W. Bush e Al Gore.
Esta questão das sondagens leva-nos a chamar à atenção de uma recente entrevista da cientista política Daniela Melo, de New Bedford, concedida a Ana Rita Guerra, da Agência Lusa, e que com a devida vénia aqui reproduzimos algumas passagens em que a docente universitária (leciona Ciências Políticas na Boston University), numa excelente análise ao atual panorama, afirma que “houve um equívoco sobre o que se passou em 2016... As sondagens não foram uma grande falácia da última vez. Quando o então candidato Donald Trump venceu o colégio eleitoral e derrotou Hillary Clinton, comentadores e analistas apontaram o dedo às sondagens, já que a perspetiva era de que a candidata democrata fosse eleita”, sublinha Daniela Melo, que acrescenta: “É muito difícil fazer sondagens nos EUA”, apontando para a dependência do telefone fixo, um meio de condução de pesquisas que é cada vez menos fiável para obter uma amostra representativa. A cientista política natural de Felgueiras afirma ainda que as firmas de sondagens fizeram um esforço nos últimos quatro anos para afinar as pesquisas ao nível dos estados e terem uma perceção mais adequada das intenções de voto. “Há os eleitores prováveis e os eleitores registados. Os prováveis recebem mais peso nas sondagens”, explica Daniela Melo, que acrescenta: “o modelo diz que os eleitores mais prováveis são os mais idosos: quanto mais velho o eleitor maior a probabilidade de votar, a idade é o elemento mais fiável na previsão de voto”.
A docente da Boston University salienta por outro lado que “falou-se muito sobre o facto de que quando se ligava às pessoas elas não queriam admitir que iam votar em Trump... Havia uma certa vergonha, não na classe trabalhadora, mas sobretudo nas camadas sociais mais altas, pessoas brancas com ensino superior, havendo uma discrepância muito grande sobre o que as pessoas admitiam e como votaram”.
Mais adiante nesta entrevista à Agência Lusa, de Lisboa, Daniela Melo refere que as sondagens se têm mantido estáveis e que desta vez não existe o fator de repulsa que levou muita gente a não votar na candidata democrata há quatro anos. “Biden pode não ser o melhor candidato, mas não é uma Clinton, esta um símbolo de tudo o que para a classe trabalhadora tinha corrido mal, um símbolo do neoliberalismo, da abertura dos mercados, do NAFTA. Biden não promete necessariamente uma melhoria nas várias frentes que quem votou em Bernie Sanders quer ver, mas promete um retorno à normalidade”, sublinha ainda a docente universitária, que prevê uma vitória de Biden a 03 de novembro: “As indicações são de que Biden vai poder atrair muito o voto dos republicanos moderados e dos independentes e de certa forma, ser moderado e prometer um retorno à normalidade basta para conseguir cativar esses votos, nesta que é a verdadeira eleição anti-Trump”, conclui Daniela Melo.