Nos 102 anos do “Peter Café Sport”

 

                                                                                                    

Neste espaço de todos os reencontros, bebo o gin da amizade com um grupo de amigos. O “Peter Café Sport”” festejou 102 anos de existência no passado dia 25 de Dezembro de 2020 e integra, desde 2018, a Associação Europeia de Cafés Históricos.
Mas de que falamos nós quando falamos do “Peter”? 
José Henrique Azevedo, actual proprietário do Café, lembra seu bisavô Ernesto Lourenço Azevedo (1859-1931), comerciante já instalado na praça faialense, que possuía um bazar de artesanato no Largo do Infante e que se dedicava ao comércio de produtos locais: bordados, rendas, chapéus e cestos de palha, flores de penas, trabalhos de crivo e muitos outros artigos do artesanato local. Foi com estes produtos que, em 1888, participou na Exposição Industrial de Lisboa, tendo obtido, pela sua qualidade e diversidade, a respectiva medalha de ouro e diploma.
A mudança do século XX levou Ernesto Azevedo para a Rua Tenente Valadim, adquirindo um dos edifícios que hoje está incluído naquilo que é o “Peter”. Chamando-lhe “Azorean House”, mantendo o comércio de artesanato mas passando também a vender bebidas, este novo estabelecimento permitia ao seu proprietário a enorme vantagem de estar mais próximo do porto e, por isso, de todo o movimento que ele gerava como único local de entrada e saída de bens e pessoas da ilha. 
Já nessa altura, o estabelecimento apresentava uma característica fundamental: era um negócio familiar, ocupando o pai, Ernesto Azevedo, e o filho Henrique Lourenço Ávila Azevedo (1895-1975), que acabaria por ser o continuador da tradição familiar e o herdeiro da “Azorean House”.
Entretanto na Europa e no Mundo sucedem-se acontecimentos marcantes, nomeadamente as duas grandes guerras mundiais que direta e indirectamente atingem o Faial: aumenta significativamente o movimento do porto da Horta, numa altura em que já nesta ilha estavam instaladas as Companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos.
Em 1918, já por sua conta, Henrique Azevedo transfere a “Azorean House” para o edifício vizinho do lado norte, mantém o mesmo ramo de negócio e, como era desportista, muda-lhe o nome para “Café Sport”; escolhe novo mobiliário e decoração com motivos náuticos (com destaque para a famosa águia americana como símbolo) e, por influência dos ingleses ligados às companhias dos cabos telegráficos, aposta, com sucesso, na venda de gin tónico.
 E, dando um salto temporal, é altura de falar do pai de José Henrique – José Azevedo (1925-2005), figura incontornável. Menino e moço nos anos 30 do século passado, ele ajudava o pai no café, executando vários serviços, desde o transporte de munições para os navios, passando pelo trabalho na Cantina, que fornecia víveres aos barcos de passagem. Com o tempo, o miúdo foi melhorando o seu domínio da língua inglesa. Um inglês, oficial chefe dos serviços de munições e manutenção do navio Lusitania II, estacionado no porto da Horta, engraçou com José Azevedo, agora com 15 anos de idade. Achando-o parecido com o filho que tinha ausente, passou a chamá-lo pelo nome dele, “Peter”, argumentando que assim pensaria ter o filho a seu lado. Dos ingleses para os portugueses, o nome “Peter” passou tão rápida como indelevelmente e de tal forma suplantou o nome de baptismo de José Azevedo. Estava encontrada a marca registada daquele que viria a ser um dos mais carismáticos e emblemáticos cafés do mundo.
Sempre com o pai por perto, José Azevedo dedica-se a tempo inteiro ao café e reforça a prestação de serviços aos navios que aportam à Horta. A partir dos anos 60 surge um novo tipo de visitantes: os tripulantes das embarcações de recreio (“os aventureiros”). Para além do convívio e da tertúlia, o “Peter” torna-se agência de informações, posta-restante e espaço de câmbios. Por este café têm passado os skippers mais celebrados de todo o mundo, incluindo o cantor belga Jacques Brel, que ali cantou no dia 19 de Setembro de 1974. Hoje, a comunidade iatista internacional considera o “Peter” como um dos melhores bares do mundo para receber velejadores.
Com a morte de José Azevedo, seu filho, José Henrique Gonçalves Azevedo (1960-    ) que desde muito novo vinha ajudando o pai, mantém a tradição familiar e toma as rédeas do café. Nas últimas 4 décadas, ele alargou e expandiu a marca “Peter” para outras localidades, dando ao negócio um cunho moderno e empresarial. Foi em grande parte devido ao seu empenho que nasceu, em 1986, o Museu de Scrimshaw (que guarda valiosíssimo espólio de artefactos em dente e osso de baleia), bem como a Loja de Souvenirs, contígua ao café. O que para ele, e para todos nós, continua a ser um mistério é a razão que terá levado o seu bisavô a inaugurar um café em pleno dia de Natal…    

Uma coisa é certa: o “Peter Café Sport” continua a ser sinónimo de acolhimento, repouso, hospitalidade e convívio. E, mais do que um café, é hoje uma instituição de renome internacional.