Obrigada, Mayone Dias! Meu adeus ao cronista da América

 

A terceira edição do livro “Caminhos do Divino. Um olhar sobre a Festa do Espírito Santo em Santa Catarina” traz na orelha da capa um parágrafo da crônica escrita pelo Professor Doutor Eduardo Mayone Dias, publicada no jornal Portuguese Times (2010), quando da saída da primeira edição. Mayone Dias fez uma esmerada leitura crítica e aqui destaco um pequeno fragmento: “É uma obra que se tornava necessário escrever, na medida em que tão lúcida e conscienciosamente destaca o entusiasmo e muito considerável fidelidade à secular tradição com que a festa do Espírito Santo se continua a celebrar em terras de Vera Cruz. Este culto ao Divino, na sua dinâmica sobrevivência no Sul do Brasil, o ponto mais distante da sua origem entre os outros em que se celebra, representa um fenómeno de inegável interesse que não poderia ser ignorado”. 
Esta foi o jeito que encontrei de prestar a minha homenagem ao Professor Eduardo Mayone Dias. Conheci-o em novembro de 1995, durante o 4º Congresso das Comunidades Açorianas realizado na cidade da Horta, Açores. Presidia uma Mesa ao lado dos professores Ramiro Dutra e Walter Fernando Piazza. Apresentava pela primeira vez um trabalho nos Açores e sobre a Festa do Espírito Santo em Santa Catarina. Naquele evento em que era uma debutante pelas Ilhas Açorianas protagonizei uma passagem que até hoje está rendendo alguma piada e contada pelo Onésimo Almeida aumenta a graça e “a saia justa”. É verdade, também, que naquela altura conheci uma malta de amigos que o tempo tratou de fortalecer a amizade. Bem, não mais disperso e volto ao mestre Mayone Dias.  
Em 1995 pouco conhecia de Eduardo Mayone Dias e de sua obra, mas o suficiente para saber que estava diante de uma das figuras mais respeitadas e admiradas no mundo das letras da diáspora portuguesa, do eminente professor, do investigador profundo da vida societária dos emigrantes portugueses na Califórnia. Escritor, professor, gentleman, atento observador das andanças de seu povo português emigrado e da vida nas comunidades da diáspora. “Historiou como ninguém a Muitos anos depois escrevi o artigo “Cronista da América”, publicado na imprensa açoriana, no Portuguese Times (Costa Leste) e no Tribuna Portuguesa (Califórnia) e está no “Na Esquina das Ilhas”(2011). Hoje, como um tributo a sua memória e de gratidão ao amigo mestre que partiu no último dia 24 de abril, relembro alguns trechos.
Naquele Congresso das Comunidades de 1995, Mayone Dias discorreu sobre os Picoenses em San Diego, (meados do século XIX até a década de noventa, do século passado). Uma verdadeira aula de história e de sociologia política sobre as relações de trabalho, interações sociais e culturais daquela comunidade de emigrados açorianos. Suas lutas e vitórias. Seu desvanecimento com as mudanças sociais e culturais inexoráveis. Sua grande contribuição no desenvolvimento da cidade de San Diego.
Não mais tive o prazer de encontrá-lo. Ficou na memória o registro da sua sabedoria e simplicidade, das conversas compridas, da simpatia, da elegância e da serenidade de um incrível olhar azul. Reencontrei-o na sua obra espalhada em várias publicações como Crónica das Américas (1981); Novas Crónicas das Américas (1987) e Miscelânia L(USA)landesa (1997). Ou mesmo citado ou entrevistado por outros autores que comungam as mesmas preocupações e anseios e que também um dia buscaram o sonho americano, na outra margem do Atlântico. Cito como referência Diniz Borges no seu artigo Vozes do Povo: A comunicação-social de língua portuguesa no estado da Califórnia – Uma possível Leitura (2008); Onésimo T. Almeida em L(USA)lândia: A Décima Ilha (1987) e Vamberto Freitas em Jornal da Emigração: L(USA)lândia Reinventada (1990), Jornal da Emigração II: Pátria ao Longe (1992) e no Prefácio da obra Miscelânia L(USA)landesa (1997). 
Fica-nos a saudade do Cronista da América. Fica o legado de sua obra. A escrita primorosa de grande qualidade literária onde o sentir se expressa na agudeza de espírito, na perspicácia, na sutileza de levar o leitor a pensar ou transformando-o em cúmplice de seu olhar. Seja uma crônica que fale de suas vivências no México, que retrate a vida do povo latino-americano duramente marcado em sua realidade pela marginalidade social que oprime o homem ou que destaque a produção literária e a cultura hispânica e até mesmo a brasileira.
As crônicas publicadas no tempo presente mantiveram a mesma atenção e preocupação com os rumos da presença lusa na Califórnia e o fortalecimento da sua identidade. Uma emigração que acompanha a marcha do tempo desde os pioneiros, àqueles que com perseverança abriram os caminhos em terreno abruto.
Mayone Dias falava do futuro das gerações e do sentimento de pertença à terra de seus pais e avós ou à terra de acolhimento, a América, enquanto grupo coeso e representativo, consciente dos seus direitos e deveres. Defendia a unidade, o coletivo, o “nós” e não uma soma de “eus”.
As crônicas de Eduardo Mayone Dias são abertas, frontais, ricas na informação, cheias de astúcia e de admirável humor contando histórias e mostrando os processos de mudanças sociais e culturais por que passam as comunidades portuguesas na Califórnia do século XXI. Foram chegando em tempo real, na modernidade da comunicação virtual em “sites” ou pelo correio eletrônico, numa gostosa e prazerosa troca de e-mails, brindando-me com suas histórias ou satisfazendo a minha curiosidade sobre a grande Los Angeles com seus treze milhões de habitantes. E é de Los Angeles que o incomparável cronista travou um diálogo plural sobre a realidade da Lusalândia. Foi ali em San Antonio que construiu o seu universo consciente das metamorfoses do seu caminhar e dali que partiu deixando-nos órfãos do seu saber.