Boias da Memória

 

A fina flor da sociedade

O conceito expressa-se em artefactos, na arte e nas crenças, como nos costumes e na criação e no uso de tecnologias, no pensamento prevalecente que se projeta na visão do mundo, e até na aquiescência submissiva às figuras representativas da autoridade dominante. Se continuam vivas, aquelas sociedades estagnam. Parecem mortas, paralisadas no percurso qualitativo do desenvolvimento social e económico que se define por civilização. Com dificuldade acompanham o mundo, seguindo-o à retaguarda. Os responsáveis escondem então na promoção exagerada do amor da pátria, em racionalizações, definidas em ternos de explicações lógicas mas inverídicas, as causas da realidade flagrante. Assim protegem a dúbia competência ou o malogro da política governamental.
Com a implantação da República em 1910 sobre os cadáveres do penúltimo monarca e do príncipe herdeiro, a burguesia em Portugal assumiu-se como uma nova aristocracia nos relacionamentos sociais. Não podia deixar de desbordar para os Açores, sempre atentos à oportunidade de se imitarem ideias e até a pronúncia do falar alfacinha que se transformou numa referência sociolinguística da elite insular a partir da década de 1950 por influência dos professores do ensino secundário. Eram predominantemente oriundos da metrópole. Influiria ainda neste fenómeno plurifacetado e psicossociológico um sentido autodepreciativo de largos segmentos da população de que a capacidade de exercer o poder residia, como hoje, na metrópole. No centro burocrático e governamental do Estado colonial havia uma perceção insensível ao valor integrativo da diversidade subcultural de que as Ilhas eram uma projeção análoga, e ao seu estudo nas implicações inerentes à diferenciação na realidade percetual da liberdade de expressão e variantes no pensamento académico e da identidade regional.  
Amplas camadas da sociedade insular de que o ensino centralizado se apercebeu, e ainda resiste, já se consciencializam de que a decadência entroncada na mesmidade secular da Ordem Antiga procede nem sempre apenas de modo latente. Prolonga-se sob máscaras democráticas, protelando ao modo de doação gentil, obviamente insidiosa, a forma e contornos subtis, mas eficazes nos seus fins aberrantes, a ineficácia governamental no desenvolvimento económico regional. Nesta teia de legislação e regras próprias de uma ocupação velada e desnecessária, até a divulgação curricular da história local se proíbe ou posterga em argumentos sem rigor lógico e à revelia da unidade nacional. A mudança apresenta-se sempre como um adamastor indomável na transformação inevitável das sociedades sem confiança e esperança no futuro. 
A aspereza inegavelmente fascista das normas mudas definindo as relações sociais refletia-se nos códigos regrando até a viabilidade do matrimónio com a demarcação arbitrária e discriminatória do valor da pessoa. Ao regicídio brutal perpetrado em Lisboa por agentes da Carbonária em 1889 seguira-se uma série de eventos políticos domésticos e internacionais, demonstrativos da insignificância do país no contexto da imagem nacional cultivada na evocação da sua grandeza histórica. A república vestia novas capas num corpo cadente pela negligência da elite dominante. A derrota das pretensões que a Inglaterra provocara com o incidente do Mapa Cor-de-rosa, e o choque de ideologias na competição pelo controlo da corrupção governamental, dera ao país a sensação, que agora se confirmava sob a autoridade do regime salazarista, que nada se alterara na condição paupérrima e de opressão do povo. O capitão António Óscar de Carmona, elevado posteriormente à presidência da República já com o posto de general, declarara um dia que “a pátria está doente”. A medicina, porém, fora quiçá pior que a doença. 

 

(Continua numa próxima edição)