Conselhos da médica Helena Santos-Martins

 

“Entramos na fase de desconfinamento”
Helena Santos Martins, médica em Boston

 

Gradualmente vamos atingindo a meta que vimos esperando. Depois da obrigatoriedade do recolhimento em casa, faseadamente, vamos regressando à vida normal, se bem que a normalidade total ainda não se deslumbre. Mas com uma opção sensata, cautelosa, vamos conseguir.
E entretanto, cá está uma vez mais, a médica Helena Santos Martins a dizer-nos o que devemos e não fazer. 

Desconfinamento 
“Isto era um plano aguardado e que entrou em vigor a 19 de maio. Mas convém salientar em quatro fases de execução. Estas fases irão durar três semanas cada uma. Possivelmente mais. Dependendo da evolução da doença. Mas tudo irá ser feito de uma forma gradual e bastante sensata. Terão de continuar a ser tidos em conta a evolução dos números de forma a poderem conter o vírus. Estou satisfeita pela forma como tudo está a ser encarado, dado que há outros estados em que tal não está a acontecer”, refere Helena Santos-Martins.

Qual a reação da pessoa, cujo teste dá positivo

“A pessoa fica surpresa. É impossível eu ter isto. Muitas vezes duvidam da veracidade do teste. Vão voltar a fazer o teste. As pessoas associam a um resultado bastante mau. Temos de aconselhar a haver coragem. Isto não significa morte. É preciso uma educação do paciente, com muita paciência da nossa parte. Temos de lhes fazer ver que a maioria das pessoas ficam bem. E que nós vamos acompanhar a pessoa até a uma recuperação completa. Depois de lhes mostrar segurança. Que a pessoa não está sózinha. Quando se vê rodeada pelos médicos e enfermeiras, a pessoa já se sente mais apoiada. De uma forma geral a recuperação leva duas semanas. Há pessoas que levam mais uns dias”, esclarece a médica.

O receio ao internamento

“O receio ao internamento é uma coisa natural. Consigo compreender, principalmente quando as pessoas não têm uma condição clínica, que não tem nada a ver com o covid. Muitas pessoas acabam por atrasar a ida ao hospital, muitas vezes, com consequências graves por causa desse receio. Principalmente se tiverem problemas graves do coração, problemas pulmonares. Se o médico de família recomenda a ida ao hospital não pode haver hesitação. Durante este período do covid houve uma redução bastante grande de internamentos nas especialidades cardíacas. Houve mesmo uma maior mortalidade dessas pessoas em casa, por causa de não terem chamado a ambulância ou o médico, mesmo não se sentindo bem. Aquela velha teoria de eu não quero ir para lado nenhum. Isto vai passar. Essas pessoas chegaram ao hospital numa fase mais avançada, que vai obrigar a um maior período de internamento. E por vezes numa situação mais grave se o internamento tinha sido feito, quando os sintomas se manifestaram.
A minha recomendação é, se não se estiver a sentir bem, chamem o vosso médico. Ou chamem a ambulância. 
Para vos sossegar um pouco. Atualmente, os hospitais, já não registam aquela correria inicial. Pelo que já é muito mais seguro para as pessoas. 
Os hospitais, também já aprenderam bastante nas novas regras de higiene. Distânciamento. O pessoal do hospital já está muito mais conhecedor. Estão a ser testadas todas as pessoas internadas. Para se efetuar a divisão das pessoas, negativas e positivas. Mesmo as pessoas sem sintomas. 
Mas no meio de tudo isto. Consultem o vosso médico e sigam os seus conselhos. Torna-se um pouco mais perigoso, quando a pessoa tem de sair do hospital e ir para reabilitação. Aqui a situação é mais crítica, dado a alta percentagem dos testados positivos nestas casas de reabilitação. Mas mesmo estes centros estão a fazer a separação entre os positivos e negativos, pelo que já há mais cuidados, mas a precisar de mais melhoras”. 

Sindroma da Kawasaki

“A Kawasaki não é um vírus mas sim um sindroma que está a surgir em crianças, se bem que em número reduzido. New York, registava cerca de 140 a 150 casos. É um sindroma causado por uma inflamação das artérias e que por vezes ataca o coração, mas que se pode detetar no corpo inteiro. Isto significa que estamos sempre a aprender sobre o Covid 19, que se manifesta das mais váriadas formas. Tem sido um processo de aprendizagem contínua. Temos detetado pequenos coágulos de sangue que podem causar embolias pulmonares. Que se apresentam com falta de ar súbita. Dores no peito. Estes sintomas obrigam a uma hospitalização imediata. Mesmo que sintam uma coisa simples, contactem com o médico de família. Não assumam que estão bem”.

Pessoa recuperada do Covid 19 pode ser novamente infetada?

“Isto é realmente possível. A área de investigação ativa é tentarmos saber a imunidade que a pessoa adquire depois de ter sido infetada. O nosso pensamento era de que a pessoa infetada pela primeira vez, o corpo reagia e a pessoa ficava imune ao vírus. Agora já se conclui que não é assim. Depende de pessoa para pessoa. E ainda estamos a tentar perceber o nível de imunidade que a pessoa adquire. E até agora não temos nenhumas respostas a estas perguntas. Para o efeito estão neste momento a serem efetuados três diferentes testes”, elucida a médica portuguesa.
 
A consulta virtual

“No momento atual não estamos a fazer consultas presenciais. Utilizamos ou o telefone ou o video. Curiosamente, há muitas pessoas que não gostam que os médicos os vejam nas suas casas. Mas têm de se convencer que o médico está preocupado com o doente e não com a casa. As pessoas não têm muita experiência com as plataformas. Existem plataformas simples e o pessoal técnico do consultório ajuda o paciente no processo de ficar online. Outra barreira é que uma grande maioria das pessoas com mais idade não têm acesso à internet. Mesmo o telefone é um telefone de linha. Temos que nos habituar e ter uma mente mais aberta”.

Desconfinamento 

“O desconfinamento que entrou em vigor a 19 de maio está dividido em quatro fases. Cada fase vai durar pelo menos três semanas. A primeira, início. A segunda, cautela. A terceira vigilância. A quarta, o normal. Torna-se difícil saber o que irá acontecer no fim do verão. 
A fase 1. As coisas abertas serão as igrejas. Algumas indústrias. Alguns tipos de negócios. Fábricas. Companhias de construção. 
Deram autorização para hospitais e centros de saúde, oferecem cuidados de prevenção. Cuidados de pediatria. Tratamentos de doenças de alto risco. Cada segunda-feira vão abrindo mais unidades. No dia 25 de maio, Memorial Day, vão passar a ser dados de saúde que acabei de mencionar. Registou-se a abertura das praias. Mas com as precauções em efeito. Marcáras. Distância Social. Lavagem das mãos. Sair de casa, só se for de grande importância. Na fase a iniciar a 8 de junho vão passar a ser marcadas as cirurgias, sem ser de emergência. Cataratas, hérnias. Intervenções importantes, mas não urgentes. Abertura dos dentistas. No caso de haver uma evolução no sentido negativo a fase é congelada. Segundo declarações do governador, terá de haver um aumento no número de testes. De momento espera-se aumentar para 45 mil testes diários. Sendo o objetivo 75 mil diários no final do ano”.

Graduações escolares

“De uma maneira geral os alunos do high school e da universidade, não vão poder celebrar o fim dos cursos da maneira normal. Tem sido uma fase de tristeza, não só para os estudantes, como para as famílias. É uma meta pessoal e profissional que este ano não vai ser festejada.
Uma mensagem. Todos vós conseguiram ultrapassar um objetivo. Vão poder dizer aos vossos filhos e netos. Eu graduei na altura do coronavírus. Espero que tudo isto dê ainda mais coragem para continuar com os vossos projetos. Não desanimem”, concluiu Helena Santos Martins, médica em Boston. 

 


Entrevista concedida a Jorge Morais para a WJFD e adaptada por Augusto Pessoa para o Portuguese Times.