Cá estou


 

Caros amigos, cá estou desta banda do mundo nas areias do “Mar-a-lago”, que é, como sabeis, o sumptuoso palacete-hotel do nosso excelentíssimo presidente. O meu amigo John, oriundo do estado de Ohio, oficial reformado da Marinha, é quem me fornece, logo ao romper da aurora, o “Wall Street Journal”, depois de ele ter passado os olhos pelos títulos e os números da Bolsa, que é onde ele tem a curtir os capitais que lhe restam. O resto dos artigos e comentários não lhe interessam muito. Desta maneira, o John é conhecido como o meu “paper boy”. Para espreitar o lado liberal do mundo adquiro mais tarde, numa estação de gasolina, o meu “velho” New York Times, que me tem feito companhia desde 1950, o ano em que dei entrada no “Diário de Notícias” de New Bedford, onde disse de minha justiça até ao dia do seu encerramento, em 1974.

Hoje à noite, eu e minha filha iremos jantar num restaurante, com o meu amigo Manuel Moniz e esposa, residentes em South Dartmouth. E a caminho e de automóvel está a “picarota” e o marido para o “cottage” que compraram o ano passado, e que fica a menos de cem metros  da casa de minha filha. A picarota é uma simpática amiga e colega profissional de minha filha, a quem eu, um dia por brincadeira, crismei com o nome como ficou a ser conhecida entre nós, por sua mãe ser oriunda da ilha montanha, a qual veio para os EUA com dois anos de idade.

E os velhotes que habitam esta pequena povoação de 400 casas, americanos e canadianos, fugidos aos frios e gelos do norte cá se encontram, como eu, vivendo os dias que lhes restam, um tanto preocupados com a “geringonça” criada pelo nosso chefe supremo que, para seu e nosso mal, está sendo aconselhado por racistas e   supremacistas com tendências fascistoides. Os nossos amigos do G.O.P., que a princípio não gostavam da arrogância televisionista do homem, acabaram por o aceitar com todas as honras, com exceção de dois ou três “old timers” e de uma parte do mundo à nossa volta. Mas todos vamos ficar admirados e satisfeitos com a famosa e “fantástica” muralha TRUMP, gravada com monumentais letras de ouro, a cor preferida do nosso imperador.

Quanto a mim, quando escrevi a última crónica, antes de vir em férias, fui tentado a deixar a “viola” em casa. Mas esta doença de dizer coisas não se cura com facilidade. O mal é apanhar o “bicho”. Depois, este fica a fazer parte da vida de quem está contaminado. E a tragédia será quando o motor cerebral não possuir a capacidade para distinguir o que está dentro dos limites da lógica e da razão, e o que é simples ilusão ou loucura, como parece estar acontecendo à pessoa de quem há pouco falamos.

Para tal possibilidade confio na bondade dos meus amigos para que me alertem, se tal me vier a acontecer. E agora sim. Vou dependurar a viola, e não metê-la ainda definitivamente no “saco”.

O sol da Flórida parece não querer que eu faça isso por mais uns dias.

E depois, será o que diz o velho seringador lusitano: “Deus super omnia”!