Carta a Marcelo

 

 

Meu caro Marcelo Rebelo de Sousa. Sou um cidadão com 94 longas perimaveras vividas, na maior parte, longe da terra onde vim à luz, pelo que me julgo com o direito, amizade e admiração para te tratar por tu, ou pá, o tratamento que dou nas cartas que, de quando em vez, escrevo ao meu PÁ da Galileia. Desde que entraste no poder tenho sido um teu admirador incondicional. Olha, de tal modo, que te tenho comparado ao nosso amigo comum, o admirável Papa Francisco Tenho-o dito nas conversas com os meus amigos, e nuns rascunhos que às vezes mando para os jornais portugueses,  radio e TV aqui  da América. Gosto da maneira humilde e humana como te portas e como te regalas em dar beijinhos às mu-lheres, novas ou velhinhas, homens e crianças.Exatamente como o nosso  Irmão de Roma. Vá-rias vezes te tenho comparado a Ele. Não só na filosofia e temperamento, mas até fisicamente. Um ao pé do outro, passam bem por irmãos gé-meos. Só o de Roma pesa mais uns quilinhos do que tu.

Dito o que fica dito, lamento dizer-te que fiquei um pouco chocado com a posição “política” que assumiste naquela dura repreensão que deste ao teu leal colega de trabalho, o também simpático Tony Costa. Não. Não quero adivinhar qual foi o teu objetivo em dar aquele bofetão e puxão de orelhas em público ao teu amigo e companheiro, decerto tão interessado como tu no bem de Portu-gal e dos portugueses. Digo-te com franqueza que fiquei admirado e alarmado com a quase “Trumpeana atitude do nosso chefe, aqui deste lado do oceano.Estava habituado à tua atitude calma,compreensiva das mazelas humanas e da aparente incompreensão do criador e destruidor das coisas, inclusivamente nós, que pouco ou nada sabemos das dádivas e maus humores do Universo. Se te concentrasses um bocadinho antes da tua inesperada e impensável explosão, estou certo que obrarias de outra maneira. E estou quase certo de que já te arrependeste daquela atitude indigna de ti. Tão grande sofrimento decerto transtornou a tua capacidade humana de descernimento. Como sabes a culpa não foi do Tony Costa, nem de ti. Poderá ter sido de algum terrorista ajudado, sem dó nem piedade, por uma natureza indiferente, tanto criadora como destruidora da obra criada. Meu caro Marcelo, custa-me crer que agiste com intenções políticas. Quiseste apenas consolar o povo ferido, sem te lembrares  de que estavas transformando o teu amigo e colaborador em bode expiatório.

Como sabes, nisto de desastres naturais, as culpas  não são de ninguém, ou são de todos. A natureza não admite sócios. Quando ela  resolve  destruir e matar mesmo a sério, é quase sempre os mais pobres e indefesos. Nos fogos e cheias que assolaram não só Portugal mas uma parte do mundo, foram destruídas milhares da habitações. Quase todas casas de pobres. Ora o Tony Costa é apenas um simples bípede humano como todos nós. Não tem a capacidade de prever a chuva nem o vento. Nem decerto o senhor professor e presidente. Atribuir culpas a este ou àquele é tempo perdido. E não está a caráter a uma pessoa de bom coração como o senhor presidente Marcelo dar aquela chicotada pública, como se fosse Deus ou imperador. Estaria mais a caráter ao presidente  desta  nação de nações, que é aquela onde vivo atualmente e milhares de outros portugueses, alguns dos quais perderam também as suas casas e haveres na Califórnia. Felizmente o nosso Trump não acusou  ninguém pelo que aconteceu. Que ele tem muitos poderes, mas não o de manda-chuva. Meu caro presidente Marcelo. Continuarei a admirar a sua atitude bondosa e humanista. Mas custou-me ouvir esta manhã no café um amigo dizer em voz alta: “O presidente Marcelo, desta vez, em vez de bejinhos, meteu a pata na poça”.  

E eu não gostei.