Ainda não parti

 

 

Os amigos do Canal não viram a minha cara por duas semanas e alguns terão julgado que o “fala barato” terá partido desta para melhor. Digo fala barato, porque as falas do “Manel” são mesmo dadas de graça a todo o mundo e arredores. Agora são de graça, mas já foram pagas, graças ao meu PÁ da Galileia. 

De facto elas foram o meu ganha-pão, de 1950 a 2014. Façam as contas. Posso mesmo dizer que ajudei  a  construir um dos instrumentos onde fiz todo o meu percurso  de trabalho neste país que me  acolheu. O primeiro foi o “Diário de Noticias” de New Bedford. E o segundo, a mais potente estação de rádio onde, durante 64 anos pontifiquei, com notícias e comentários, sem esquecer a publicidade, que lhe serviu e continua a servir de alimento, sem o qual ela não existiria. E para tal muito contribuiu Antonio Alberto Costa, o companheiro que  vim a conhecer na oficina do jornal, eu com 24 anos e ele com 22. Dois rapazes com o mundo pela frente, tendo no bolso, como único capital, a imaginação e a vontade de fazer coisas.

Mas porque vos estou contando estas coisas? Não sei. Quando me sentei ao computador, para falar com vocês, o meu objectivo era alinhavar uma crónica baseada  numa palestra na NPR, ou Rádio Nacional, que escutei a noite passada e que, para minha surpresa, acabou às duas da manhã. O orador era o dr. Wayne W. Dyer, de quem possuo vários livros e discos.

Um dos livros do dr. Dyer, intitula-se “The Secrets of the Power of Intention”. O autor é um homem simples, sem pretensões, que fala pausadamente, em linguagem terra-a terra, e conta histórias pessoais, de pendor formativo, e de descoberta daquilo que somos e das forças  que nos comandam. Não vende religião, mas explora as forças ocultas que nos levam às origens do Eu. Do que há de divino em todos os seres vivos. Todos nós posssuimos uma centelha dessa força. Que nos ilumina, nos inspira e nos torna iguais. E contou uma história de alguém a quem pergutaram quem era ele e que respondeu: “sou Deus”. E que a resposta não era absurda. Se somos filhos de Deus, somos portadores de natureza divina.

Aqui, o meu pensamento particular diverge um pouco   do seu. A minha definição de Deus é a vida em si. Essa coisa impossível de discernir ou imitar. Sem vida, não há pensamento. Sem comida, o nosso cérebro, perde a capacidade de pensar. Há uma ligação forte, entre o moral e o material. Sem um é impossivel conceber o outro. Já um dia falei de um grão de milho, seco, sem vida aparente. Molha-se, e a “vida” aparece. E a espiga, o grão, o sabor, o cheiro, tudo estava programado dentro desse pedacito de matéria. A matéria não é coisa vil e desprezível, nem se pode separar daquilo que consideramos “divino”. Tudo o que é material é divino. Assim como estava certo o homem que disse que era Deus.

Em essência nós somos pensamento. Mas o pensamento não existe sem matéria. Sem pensamento eu não poderia estar aqui a urdir estas locubrações. Mas o meu pensamento sem este corpo transitório, não existe, é como o grão de milho, seco, sem água que acorde a vida “divina” que tem dentro de si. Nesse grão minúsculo está tudo escrito e programado. É essa reação química entre dois elementos que produz o mistério da vida. E se a vida é Deus, tudo o que existe é parte do corpo de Deus. E para me certificar, irei fazer uma pergunta ao  meu PÁ da Galileia. Ele deve saber.

Estou a ver os meus amigos que acreditam em bruxaria e rezas com azeite, a dizer que o Manuel  Calado acabou mesmo de perder o pouquinho de juízo que ainda lhe restava. Amen.