Trampa em Português


 

Como todos sabem entramos numa época de “Trampa”. É Trampa p’rà esquerda, trampa p’rà direita… E esta Trumpa traz-nos todos agoniados, sem saber o que vai na cabecinha do espécime. E ele, sempre desejoso de ser o figurão número um já se está gabando de ser o primeiro cowboy que teve a coragem de lançar a primeira “bomba mãe” de todas as bombas. Mas as nossas mulheres não estão satisfeitas com a trampanice de chamar “mãe” à super-bomba. Porque não pai”? De facto chamar pai à bomba estaria mais de acordo com as trampanices do nosso chefe. Mas trampa é trampa e é preciso desviar a atenção da investigação que estava a começar, sobre as trampassas que teriam ocorrido com a conivência de um outro malandro chamado Putin.

E tudo isto neste sábado de Abril, cheio de sol e de um ventinho fresco que, segundo a minha mini-estação meteorológica, prenuncia chuva esta noite ou amanhã, em que a cristandade celebrou a sua Páscoa, a festa do Cordeiro. E me lembro que meu pai mandava sempre matar um carneiro para a celebração. O ti “Setapanho”, que era cocho, vinha de Salgueiro com o seu rebanho de ovelhas, cabras e cabritos, passeava-os na rua de Soza, e os lavradores escolhiam a sua rez e mandavam matar. O Ti Setapanho fazia todo o trabalho pela pele do animal.

Depois do animal morto, o Ti Setapanho abria com a navalha um pequeno orifício na perna do carneiro, metia-lhe um canudo de cana e soprava. Com o ar que o cabreiro lhe soprava, o carneiro aumentava de volume e a pele separava-se da carne. Depois do  trabalho completo, o “cabreiro” punha a pele do bicho às costas e ia à sua vida. O trabalho era agora de minha mãe e da Tia Maria Vicente, na preparação das frigideiras de barro negro, temperadas com vinho, alho e pimento e metidas no forno. E além do carneiro havia galinha e outros acepipes próprios da festa.

Dois dos hóspedes não convidados que não deixariam de estar por ali, como era costume, pelas festas da Páscoa e da Senhora dos Anjos, eram duas almas boas e sem família, o Ti Francisco “rachador de lenha” — que a mulher deitou fóra de casa, e ele só pode trazer consigo o “seu” machado. Um instrumento que eu, rapazito, admirava, e um dia ele me contou a sua odisseia de homem abandonado.

O outro não convidado do costume era o Tio Augusto de Perrães, com a sua roda de amolador de tesouras e deitador de gatos na louça de barro dos pobres. E um dos seus bens era uma pequena concertina que ele havia trazido de Espanha, onde esteve por  muitos anos, e onde aprendeu a arte de amolador. Minha mãe encarregava-se de tratar dos “seus” hóspedes, servindo-os numa pequena mesa junto da lareira, na cozinha velha, pois às vezes vinham molhados e secavam a roupa no corpo junto do lume.

Pois este é o “tal” Sábado de Aleluia. Que eu aprendi a lembrar como um dia diferente, na velha Soza de outros tempos. E pelos tempos fora me habituei a lembrar e relembrar em crónicas e poemas. O Sábado de Aleluia era um dia que recordo com os meus olhos de garoto de oito, nove, dez anos, em que a rapaziada de 18 a 20 anos, se congregava no adro da igreja de S. Miguel para a queima do Judas, suspenso pelo pescoço do ramo de umas tilia do arral. E as moças jovens vinham das terras vizinhas, do Boco, da Carregosa, do Fontão, de Salgueiro, com os seus ramos para serem benzidos com a água santa do Sábado de Aleluia. Esses ramos de alecrim, depois de secos seriam utilizados como amuletos sagrados para queimar numa tigela de barro, à porta da cozinha, para afastar as trovoadas.

Pois este é o meu Sábado de Aleluia atual, que recordo em conversa a sós com esta máquina maravilhosa, divina ou diabólica que nesses tempos de menino não existia  sequer no pensamento do sábio mais sábio que a Natureza havia produzido até então. E o que pensará amanhã este animal feito de Deus e de Diabo? Por agora teremos de contentar-nos com a “Bomba-Mãe” de todas as bombas, que à humanidade ofereceu de presente... o nosso presidente.

 

 

Espírito Santo

 

A pomba de Deus esvoaçando

Sobre o templo do meu peito,

O Espírito sobre as águas líquidas

Dos meus olhos.

Maravilhados na grandeza rubra do sol-pôr…

A coroa, o ceptro, a massa doce, as sopas

Bentas dadas pelo “amor e deus”.

A mística e solene comunhão

Do convívio humano e irmão.

Espírito Santo.

Sopro, aura, ideia, sagrada afrodísia

De meio milhão de açorianos pelo mundo espalhados.

Pedra de igreja, toalha de altar,

Esperança de vivos, descanso de mortos,

Sonho de quem partiu e quer voltar

Espírito Santo!

Bálsamo que cura e abençoa,

Cântico de hosanna,

Ideia que acalma e perdoa,

Coluna do templo

Da misteriosa alma humana.

De longe vêm as gentes

Partilhar a sopa e o pão,

E recitar os versículos

Do Evangelho da Tradição.