A Natureza e Eu

 

Não há grande distinção entre uma e outro. Somos ambos terra e cônscios um do outro. E como este será talvez o meu último ano de “ingricultura”, cumpre-me dizer duas palavras àqueles irmãos que têm tido a paciência de me ler nos jornais, de me escutar na rádio ou me ver no nosso Canal Vinte.

O que o Manuel Calado vos quer dizer é que ainda está vivo e a mexer, mas que a mãe Natureza, de quem sou filho, está tendo cada vez menos paciência para me aturar, e que, provavelmente, não me dará licença para continuar as minhas  andanças agriculturais — que já se prolongam há mais de 70 longos anos — pelo que agradeço à última meia dúzia de leitores tão velhos como eu que, com vinte e cinco jovens anos, comecei por aí a cantar de galo em tudo o que era jornal, rádio e TV, naquilo que então era conhecido como a “Colónia Portuguesa” e que só mais tarde foi promovida a “Comunidade”.

Pois caros amigos, cumpre-me dizer que, nesta última reta da jornada de cultivador, sinto que Madre Natureza me está dando com as portas na cara, no que se refere aos tomates. Ao longo dos anos, os meus tomates eram gabados por todos a quem eram oferecidos, pelo tamanho a cor e o sabor. E por tal possuo o testemunho da rapaziada do jornal, da radio e da TV, dos vizinhos da rua, do meu neto Jason, capaz de comer um saco de tomates duma assentada, do Miguel e empregadas e do meu companheiro do almoço, o advogado Farias, cuja esposa, irlandesa, disse nunca ter comido frutos tão saborosos como os do meu quintal.

(In)felizmente — e aqui tenho de fazer uma pausa e respirar fundo — neste provável último ano de cultivador e amigo da Natureza, vou talvez sofrer a maior deceção da minha vida. A ausência de sol e alta humidade por períodos prolongados, assim como a ausência de abelhas, essenciais à polinização, fizeram com que as flores apodrecessem nos pequenos cachos antes de polinizados. As plantas estão altas e verdes, mas sem frutos.

 Este mesmo fenómeno provocado pela alta humidade e falta de sol por longos períodos, observei-o na quintarola do meu amigo e colega Afonso Costa, o encartado cronista desportivo do Portuguese Times. Eu considero-me um cultivador de meia tigela. Mas o Afonso é um cultivador de tigela e meia. O Afonso sabe da poda. No seu enorme quintal há praticamente de tudo em matéria de frutos e legumes e vinha. E além dos trabalhos da terra, que ele adora fazer, ainda arranja tempo para fumar o seu charuto diário num pavilhão fora da casa, tecer as suas belas crónicas da bola e distribuir uns puxões de orelhas por aqueles que os merecem.

Como  pequeno lavrador, além dos tomates, cultivo apenas uma pequena lista de “verduras”, como feijão verde, couve galega, alface, zuchini e pepinos. E tudo isto  para distribuir por família, vizinhos e amigos. Já foi tempo em que num ano plantei mil pés de tomate e fiz dinheiro para pagar metade da casa, que é ainda aquela onde vivo e onde, se as forças me não faltarem, tenciono receber a visita do “Chefe” para a última entrevista.

E que mais posso eu dizer-vos que ainda não sabeis?