Dia do Trabalho

 

Seria talvez mais próprio se dedicado ao Tra­balhador. Mas assim quiseram os “pais” da pátria e para mim já não fez questão. Nem estas falas têm algo a ver com a efeméride. Apenas me lembro das centenas de crónicas e “Comentários do Dia” que por dever de ofício escrevi ao longo dos anos e enviei para a redação do defunto “Diario de Notícias” de New Bedford, recordando o Dia do Trabalho na América e o objetivo que nos trouxe a este país. Assim como a falta desse trabalho Salvador, depois da minha chegada, quando a primeira pergunta dos desempregados açorianos que se encontravam na rua era, invariavelmente, “tás trabalhando”?

E esses homens e mulheres angustiados de in­certeza, perguntavam, ansiosos, uns aos outros, se “estavam trabalhando”. Já disse isto algures, que aquela frase me ficou para sempre gravada na sensibilidade. Por isso voltei a recordar hoje esse momento, neste “Dia do Trabalho” de 2017, em que da Ásia chega a ameaça brutal duma guerra nuclear. Quando cheguei aqui voltavam da Europa os milhares de soldados que haviam combatido na grande Guerra europeia contra o doido alemão, que agora está sendo imitado por dois pobres de espírito, embriagados com a força bruta que julgam ter em suas mãos.

Mas afinal, a vida não é só brutidade nem ameaças de destruição diabólica. Esta manhã, quando dava o meu psseio matinal, lá me apareceu no seu SUV preto, um  amigo que está aqui há dezenas de anos e que nunca haviamos vindo à fala até agora. E isto não obstante ser membro do meu “clube cronical”, cuja doutrina disse ter-lhe caído no goto. Mas chegou o dia em que decidiu parar, dizer de sua justiça, palrar um pouco, dizer quem era e donde veio, e ficamos amigos para o resto da vida. E depois dá-se o caso de ser um antigo membro da confraria dos tipógrafos na ilha Terceira. Não deve haver por aí muitos espécimes da mesma marca. Já conhecia um outro amigo especial, a quem nasceram os dentes na arte de juntar letras na mesa dos tipó­grafos.

E é com ele que muitas vezes lançamos perguntas ao vento e a quem sabe mais do que nós. E digo-vos que, nestes dias que faltam, é salutar encontrar alguém que goste de tocar na mesma guitarra. Mesmo que não chegue a compor uma partitura de jeito. Deixou-m o meu novo amigo esta manhã uma palavra que me levou ao dicionário, visto ser das que usam pouco ou nenhuma vez na vida. O termo “emburrar”. Disse-ele, durante a conversa, que o filho, que é hoje um homenzarrão, quando era pixote, era um trinca-espinhas, não comia. Mas que, quando veio para cá, “desem­burrou”, começou a comer e hoje é um gigante.

E eu, depois de consultar o “Milénio”, concluí que o termo desemburrar está certo. E refere-se a tirar o que há de burro, ou a “burrice”, num jericó ou num pimpolho. E aqui está que, quando a esposa do nosso novo amigo “desemburrou” o rapaz, ele não deu mais “mãos a medir” — assim se dizia nas terras do meu viver primário.

A propósito, o meu primeiro professor e também o padre lá da igreja, costumavam “desemburrar” os garotos “cabeças de burro”, com a benéfica ajuda de uma palmatória, ou de uma comprida e eficaz cana da Índia. E por toda esta ajuda gramatical eu agradeço ao meu velho novo amigo tipógrafo terceirense.