Cinzas e memórias

 

 

Manuel Jaquim era sapateiro afamado.

Na pequena tenda do Mestre Agostinho Carvalho, na esquina da Rua do Rego com a minha rua, a Mira­gaia, Manuel Jaquim passava os dias, ao lado do Mestre “Serralha” e do “Pata-Marreca”,  a pôr meias-solas em sapatos velhos ou a colar, com grude feito ali mesmo na oficina, as solas e os tacões em todo o tipo de calçado, fosse de homem ou senhora.

Meu pai, quando precisava uns sapatos de atanado, pedia ao mestre Agostinho que fosse Manuel Jaquim a fazê-los. Eram garantidos para durar uns anos e não causavam calos nos dedos nem bolhas nos calcanha­res, tal era a perfeição e o esmero que ele punha na obra.

Manuel Jaquim não era só sapateiro. Era bombeiro também. Fazia parte da Associação de Bombeiros Voluntários da cidade de Angra, naquela altura superiormente capitaneados por Manuel Machado Cota, o “Salgado” e onde tinha por companheiros valentes homens que não viravam a cara ao perigo e deixavam tudo para socorrerem quem estava a passar por maus lençóis. Mal se ouvia pela cidade o som estridente da sirene, era vê-los em correria louca em direção ao quartel da Praça Velha. Aí se juntavam todos: o Chico “Pintado”, o Manuel “da Amiga”, o Manuel “Bacalhau”, os irmãos Rafael e muitos mais.

Algum que não tinha chegado a tempo ou era apanhado pelo caminho ou arranjava boleia de alguém que o ia levar mesmo ao lugar do sinistro. A cidade ficava em alvoroço com o insistente chama­mento da sirene e em pouco tempo toda a gente sabia o que se passava. Rapazes mais atrevidos corriam atrás do camião e, se alguém lhes perguntava aonde era o fogo, havia sempre um esperto que respondia, “Foi na casa da água!”

Os meios eram muito limitados. Acontecia, quando o incêndio deflagrava numa freguesia mais longínqua, que o esforço deles era em vão e acabavam por con­frontar-se com casas ou palheiros já queimados ou em ruínas e as pessoas a chorarem o seu infortúnio. Tinham pouco ou nenhum treino em primeiros-socorros, numa altura em que  a corporação consistia apenas de dois camiões-cisterna e uma ambulância oferecida pelos imigrantes da América, que o Sr. João conduzia com a perícia de um piloto de rali. Valentia não lhes faltava e, a eles e aos que se seguiram, agora já com outros meios de resposta e mais profissiona­lizados, se devem o salvamento de muitas vidas e propriedades.

Lembrei-me do Manuel Jaquim e dos seus compa­nheiros ao ver na TV as notícias dos enormes incên­dios que, mais uma vez, estão a transformar a Califór­nia numa imensa fogueira.As notícias assustam quando estas calamidades não estão muito longe da nossa porta. Sentimos o efeito dos fumos na garganta e nos olhos e só podemos imaginar o efeito das cha­mas na alma, nas casas e nas propriedades dos mais diretamente atingidos. Deve ser terrível, ser desper­tado a meio da noite pelos sistemas de alerta ou pelos gritos dos vizinhos e não ter outra possibilidade senão correr pela casa fora e deixar tudo – mesmo tudo – atrás. Não ter tempo para recorrer nada... um álbum de fotografias, papeladas importantes, o computador, nem mesmo os animais de estimação. Inimaginável o pavor que se deve apoderar das pessoas ao abando­narem todo o trabalho de uma vida inteira e saberem que poderão regressar e só encontrarem os haveres e as memórias transformadas em cinzas. Por mais bem preparados que estejam os bombeiros, por melhores que sejam os aviões e helicópteros de combate, nunca serão capazes de salvar tudo e todos. Milhares de hectares de matas desaparecem consumidas pelas chamas todos os anos; milhões e milhões de dólares de prejuízos materiais, que, afinal, não são nada comparados com as perdas das vidas humanas.

Estou a escrever estas linhas e a ver imagens alar­mantes de fogos dantescos que estão de novo a queimar Portugal. Meses depois da grande tragédia que destruiu Pedrógão Grande, as chamas consomem mais aldeias, mais matas, matam mais gente e animais. É um ciclo terrível, parece que nunca acabam, mal um fogo se extingue, aparecem logo labaredas noutro conselho. Queixam-se as gentes que o Estado não faz nada para as proteger, que já tiveram oportunidade de aprender com os desastres do passado e que os tribunais são meigos para com os incendiários. Os políticos acusam-se uns aos outros, ministros demi­tem-se, técnicos especializados criticam as decisões de outros técnicos especializados mas, ao fim e ao cabo, cada vez há mais fogos e mais destruição. É voz corrente que alguém anda a beneficiar com a situação mas ninguém consegue condenar ou prender os responsáveis.

Na Califórnia a maioria dos fogos deflagram por causas naturais. Contudo, os pavorosos incêndios que ocorreram nos Condados de Napa e Sonoma, que queimaram mais de 5 mil habitações, milhares de hectares de matas e de vinhas, ainda vão dar muito que falar nos tribunais. Há indicações que põem as culpas nas linhas de alta tensão e nas  explosões de alguns dos transformadores de energia, apontando assim o dedo à (possível) negligência na manutenção regular que deveria ser feita pela PG&E, a companhia fornecedora de energia no Estado.

Que me perdoem as vítimas dos malditos incêndios em Napa e cidades vizinhas, sei até que foram várias as famílias portuguesas que perderam as suas casas. Não devemos brincar com coisas sérias. Mas, ao recordar os valentes bombeiros da minha juventude, lembrei-me que alguns deles eram devotos do Deus Baco e apreciadores de uma boa pinga. Se fossem chamados a ajudar no combate aos fogos no Wine Country, sei que se empenhariam de alma e coração para salvarem vidas e casas mas de certeza que fica­riam desolados ao verem muitas vinhas  e dezenas de adegas carbonizadas... “Mal empregado”, diriam eles.

Para o próximo ano, quem quiser beber um delicioso vinho californiano, vai ter que pagar bom dinheiro por ele.

E, brincadeira à parte,  esse é o problema menor, no meio desta catástrofe.