Os Gigantes que Portugal Perdeu

(Conclusão)

 

Concluimos esta pequena exploração sobre a Inquisição, sobre os judeus sefarditas da Península Ibérica. Superficialmente considerámos algumas das vítimas perante a intolerância religiosa da Idade Média. Os pensamentos desses portugueses e dos que eu chamo os “quase portugueses”, Montaigne e Espi­noza, influenciaram o mundo, e por sua vez estimula­ram  os escritores, e pensadores de outros países, outras sociedades, a criar uma nova realidade para a humanidade; uma realização formidável.

Em tangentes tocou-se em vários pontos que por sua vez podia-se elaborar outras discussões, outros artigos, e que eu sugiro o leitor pondere, por exemplo: o fanatismo da religião, como desenvolve e por que se manifesta? Por que se acredita num ser omnipotente e omniscente e qual a interpretação e explicação do mundo resultante que testemunhamos? Outras consi­derações de discussão podiam involver a importância de proteger os dissidentes, os hereges, e os não conformistas da sociedade contra a censura e contra a violência de movimentos semelhantes à Inquisição, como o fanatismo da Xaria. Este último ponto é de pôr em relevo com o constante desenvolvimento do estado de segurança nacional como meio de controlo e domínio sobre a sociedade, e por isso sugiro Julian Assange e Edward Snowden como homólogos de Espinoza no presente.

Vem-me à mente uma citação falsamente atribuída ao escritor francês do século XVIII, Voltaire, que de facto foi escrita por uma historiadora Inglesa que escreveu uma biografia de Voltaire, A Vida de Voltaire (1903), usando o nom de plume S.G. Tallentyre.  Essa hoje famosa cotação é a seguinte“Eu discordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres.” A escritora, Evelyn Beatrice Hall batalhou para publicar as suas obras num mundo dominado por homens, porque a voz da mulher era marginalizada como inferior. A escritora atribui a citação a Voltaire como uma parafrase à linha de pensamento de Voltaire, como um principio desse escritor. Voltaire, por sua vez, era o nom de plume de François Arouet, que assinou as suas obras, com o nome fictício de Voltaire dada a severa censura em frança. Foi um grande defensor dos direitos civis, crítico dos reis absolutistas e da intolerância religiosa. Durante três anos esteve exilado na Inglaterra, co­nheceu John Locke, que por sua vez, anos antes tinha-se exilado nos Países Baixos e veio a conhecer Benedito de Espinoza. Ambos, Locke e Voltaire, continuaram a grande batalha de Espinoza para realizar um mundo livre, argumentando na defesa da liberdade de expressão. 

Hoje esquecemos essas batalhas do passado, esquece­mos o enorme sacrifício dos poetas, escritores e filósofos que deram frente contra a censura, contra a intolerância. 

Esquecemos tudo isso por que temos o luxo de o fazer, mas mais certamente por que somos ignorantes dessas grandes batalhas do passado, da importância dos direitos e condições de vida que hoje usufruimos adqui­ridos ao custo de muito sofrimento e abnegação dos que nos precederam.

A obra, l’oeuvre, do grande historiador Will Durant, que consultei continuamente na elaboração deste ensaio, elogiou constantemente a importância de Espinoza na construção do mundo moderno; admirei um pensamento de Durant que encontrei nas páginas do seu pequeno livro As Lições da História:  “A civilização não é herdada; tem que ser aprendida e vencida por cada nova geração; se essa transmissão for interrompida por um século, a civilização morreria, e nós seriamos selvagens novamente.” (The Lessons of History, 1968, p. 101 )

De interesse para este ensaio, lembro-me duma conversa polémica que eu, há anos, tive com um general do Exército em referência à manutenção da ordem na sociedade, me disse com um leve sorriso; “...a religião é imprescindível na manutenção da ordem, no controlo absoluto da população... não queremos uma população que raciocine, mas sim que obedeça às directrizes da nação, aos seus líderes em poder, à dogma prescrita... a religião tem sido e continua a ser formidável nessa missão.”

Bertrand Russell considerou a religião um fenómeno social, concordou com o filósofo da antiguidade Lucrécio, que a religião era uma doença nascida do medo e da ignorância, que por milénia só tem produzido dor e sofrimento ao homem.  Em parte compreendo o argumento, mas não me convence totalmente. E mesmo Russell não se convenceu com esse argumento contrário à necessidade da religião na vida do homem.  No livro, Meu Pai, Bertrand Russell, ( My Father, Bertrand Russell, Harcourt, Brace and Jovanovich, 1975, p. 184-185 ) a sua filha Katherine diz de seu pai: “... acredito que a sua vida inteira foi uma busca de Deus... em facto ele estudou a filosofia com a esperança de encontrar a prova da existência de Deus... na mente de meu pai, no fundo de seu coração e de seu espírito, havia um vazio, que antes tinha sido preenchido pela crença em Deus.”

Liev Tolstói, um dos escritores mais apreciados de todos os tempos e um dos meus favoritos, por razões semelhantes a Espinoza criticou a Igreja Cristã, Ortodoxa russa, e também acabou de ser exco­mungado; rejeitou os milagres e o dogmatismo, mas tal como Espinoza, não rejeitou a existência de Deus; chegou à conclusão nos últimos anos da sua vida que “... a fé entrega à existência finita do homem um sentido infinito, um significado que não é destruído pelo sofrimento, privações, ou pela morte... a fé continua-me a ser irracional como antes, mas tive que reconhecer que só isso permite o homem responder às grandes questões da vida; entra elas uma resposta ao significado da vida que consequentemente sómente possibilita essa vida a poder ser vivida.”  (Liev Tolstói, Confissão, 1882 ).

Talvez a religião tenha o seu lugar na vida do homem, e como articula Tolstói, muito provavelmente sempre será necessária e imprescindível porque essas “grandes questões” a ciência não consegue abordar. 

Sem dúvida as lições, as conclusões, que podemos definir desses anos da história que engloba a Inquisição, das consequências negativas que produziu para portugal, para as suas vítimas, e para a própria Igreja Católica, concentram-se nos fins do que é a religião e qual deve ser o nosso objectivo no caminho da nossa compreensão do mundo e da realidade. De novo viramos-nos para Benedito de Espinoza que nos relembra, e eu parafraso: o fim da filosofia, palavra do grego da antiguidade, filo (amor) e sofia (sabedoria), é a verdade, é a sabedoria.  O fim da religião é ser piedoso, é ser obediente. A religião nunca poderá preencher o conhecimento do mundo real para a humanidade, pois o domínio da fé é contrario ao do raciocínio, e a razão nunca poderá servir como criada da teologia ou da autocracia. 

“…ser homem é, sobretudo ser inteligente. É aquela ascensão, que não terminou ainda e porventura não terminará jamais... (Ferreira de Castro, As Maravilhas Artisticas do Mundo, extracto da sua conclusão, V. 2, 1963 )

O libre pensamento é indispensável para o desenvolvimento do homem; refletindo a advertência do historiador Will Durant sobre o contexto da civilização, a liberdade é como o oxigénio, porque sem isso nada somos.

 

 

• Victor Saraiva

(Newark, NJ)