Coimbra recebe espetáculo que conta memórias dos emigrantes das décadas de 60 e 70


Cinco atores levam ao palco do auditório do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, várias memórias dos emigrantes das décadas de 1960 e 1970, num espetáculo que estreia na quinta-feira e que promete atingir públicos diferentes.
Em declarações à agência Lusa, o autor do texto e encenação, Ricardo Correia, explicou que o espetáculo vai “abordar sobretudo testemunhos de emigrantes, desertores, refratários e exilados que saíram de Portugal entre 1961 e 1974.
“Este espetáculo, Exílios(s) 61/74, é quase um filho de um espetáculo anterior, chamado ‘O meu país é o que o mar não quer’ e que lidava com a emigração qualificada portuguesa, que saiu à conta da austeridade e da ‘troika’”, acrescentou.
O trabalho anterior permitiu recolher um conjunto de testemunhos, alguns deles de pessoas com relevância em termos artísticos, tais como Rui Horta e Eugénia Vasques, que permitiram dar vida ao novo espetáculo.
“Podemos dizer que tem uma base documental, é um espetáculo que vai questionando e retratando toda essa geração que decidiu fazer um gesto de luta, muitas vezes incompreendido, que foi sair do país para continuar a lutar lá fora. Às vezes, até como última hipótese, noutros casos para evitar a prisão e a guerra colonial”, descreveu.
De acordo com Ricardo Correia, ao longo da encenação são contadas inúmeras memórias e histórias, paralelas com a própria História.
“Não é um espetáculo de recriação, é um espetáculo que, de alguma forma, constrói um ‘puzzle’, um mosaico, quase uma polifonia de vozes, que vão contando tudo aquilo que aconteceu. Algumas pessoas com percursos e trajetos muito diferentes e outras que tangencialmente se foram encontrando, muitos encontraram-se em Paris, e tiveram um grande trabalho e ações de luta contra o antigo regime fascista português”, destacou.
A recolha de memórias e vivências não foi tarefa fácil, pois muitas pessoas encontram-se espalhadas pelo país e até fora, no entanto, “foi um bocadinho como pescar à linha”.
“Tínhamos uma pessoa, depois essa pessoa diz que temos que falar como não sei quem, que teve um papel relevante e vão-nos enviando de um lado para o outro. Foi assim que fomos conseguindo ter mais e mais pessoas e juntar mais e mais testemunhos”, revelou.
Quanto às expectativas para a estreia agendada para as 21:30 de quinta-feira, no auditório do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, Ricardo Correia espera contar com “casa cheia”.
“Penso que vai ser um espetáculo que vai tocar públicos diferentes, alguns que não ouviram falar deste assunto, mas também vamos ter algumas pessoas que deram estes testemunhos ou que estão com muita vontade de ver a ideia deste espetáculo”, concluiu.