Amigos de Rabo de Peixe homenageados na terra natal

 

A Junta de Freguesia de Rabo de Peixe homena­geou no passado dia 25 de abril a associação Amigos de Rabo de Peixe, dos Estados Unidos e Canadá (Ontário e Quebec), por ocasião das comemorações do 13.º aniversário de elevação de Rabo de Peixe a vila e nas quais marcaram presença aquelas três associações.

Refira-se que os Amigos de Rabo de Peixe dos EUA são entre os três (EUA, Quebec e Ontário) o mais antigo, fundado em 1994, na verdade o que mais se empenhou na luta pela elevação daquela locali­dade do concelho da Ri­beira Grande a vila.

António Pedro Costa, antigo presidente da Câ­mara Municipal da Ribeira Grande (durante o seu mandato Rabo de Peixe foi elevada a vila) e antigo deputado à Assembleia Legislativa Regional dos Açores, marcou presença na cerimónia de homena­gem e enalteceu os rabo­peixenses da diáspora pela forma como mantêm os laços de afetividade à terra de origem e como preser­vam as suas tradições.

Abaixo transcrevemos o seu discurso na íntegra:

 

Hoje é dia da Vila de Rabo de Peixe. Celebremos esta data com júbilo e alegria, pois foi a 25 de abril de 2004 que foi elevada à categoria de vila. Neste XIII aniversário a Assembleia e a Junta de Freguesia em tão boa hora resolvem homenagear a nossa diáspora, como parte integrante deste Rabo de Peixe que tanto amamos.

Com o efeito, os Amigos de Rabo de Peixe da Nova Inglaterra, de Ontário e do Quebeque estão consti­tuídas formalmente como associações de emigrantes, oriundos desta Vila que no norte da américa têm tido um insubstituível papel de promoção e dignificação de Rabo de Peixe, em qual­quer partida do mundo. A sua intensa atividade ao longo do ano é sinal de como os nossos emigrantes têm uma ligação telúrica capital e mostram ao novo mundo sem estigmas, a verdadeira face de Rabo de Peixe. Todos irmanados à volta do torrão natal, vive-se não apenas a saudade sentida e a nostalgia de outros tempos, mas sobre­tudo a grande vontade em contribuir para o desenvol­vimento e progresso desta Vila.

Sãos aos milhares os Rabopeixenses da diáspora que se juntam à volta dos Círculos de Amigos de Rabo de Peixe e hoje aqui, em dia em que se come­mora a elevação a Vila se homenageia com toda a justiça aqueles que um dia partiram de mãos vazias e o coração cheio de vontade de singrarem na vida.
É muito importante que os naturais de Rabo de Peixe na diáspora continuem a mobilizar-se em torno dos Círculos de Amigos e de­monstrem o seu dinamismo e a sua grande pujança, pois assim serão cada vez mais respeitados pelas autori­dades locais.

São vários os exemplos de rabopeixenses que se têm destacado em áreas de grande responsabilidade na sociedade canadiana e americana, como lição de vida que deve ser seguida, pois nunca viram a cara à luta na sua da valorização pessoal, o que constitui uma honra para Rabo de Peixe.

As atividades dos Ami­gos de Rabo de Peixe são bem o exemplo da preocu­pação em preservar a sua cultura de origem, em que os usos e costumes levados na bagagem estão bem presentes. Há no entanto um problema que perpassa em toda a diáspora açoriana que é a preocupação, de que progressivamente a cultura e a língua portuguesas estão em fase de declínio, junto das camadas mais jo­vens, o que vem exigir medidas imediatas de pre­servação da herança aço­riana, sob pena de na próxima geração a nossa diáspora ser incaracterística e metamorfosear-se.

Atenda-se o que se pas­sou em Havai, quando no século XIX muitos emi­grantes açorianos se esta­be­leceram naquele arqui­pélago do Pacífico e con­tribuíram significativa­mente para o seu desenvol­vi­mento, mas que hoje em dia a língua portuguesa desapareceu, havendo apenas alguns idosos que teimosamente ainda dizem algumas palavras dos seus antepassados.

Apesar do orgulho que têm pelas suas raízes, a miscigenação foi inevitável e apenas as “malassadas” ou o culto ao Divino Espí­rito Santo permanecem, como herança cultural que preservam com grande entusiasmo, devoção e a todo o custo.

Evidentemente nas nossas comunidades no Canadá ou nos EUA a situação não é assim tão dramática, mas falta pouco para lá chegarmos, se nada for, entretanto, feito.

Por isso, esta homena­gem da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe aos Cír­culos de Amigos de Rabo de Peixe, para além de um agradecimento público pelo apego à sua terra natal, é um incentivo para conti­nuarem com as suas manifestações culturais, em que o ensino da língua deveria ser também uma preocupação permanente.

A segunda e terceira geração começam a falar o “português”, em que cada indivíduo se exprime à sua maneira e de acordo com a herança familiar e a sua escolaridade. As raízes açorianas é para os jovens uma temática longínqua, pois confrontam-se com a vivência no dia a dia de uma cultura multicultural, em que o inglês é o deno­minador comum, não sen­tindo falta da língua dos seus familiares.

Por outro lado, não pode­mos colocar a cabeça na areia como se não houvesse um problema que urge resolver e diz respeito à raríssima a participação activa de jovens nas activi­dades, pois os mais velhos ainda não conseguiram encontrar a fórmula para atrair camadas mais ex­pres­sivas da juventude às suas iniciativas.

As preocupações oficiais situam-se em concretizar políticas que promovam, sejam por razões econó­micas, históricas ou cultu­rais, os jovens da diáspora para o interesse pelas suas raízes, que não passa ne­cessariamente pela apren­dizagem da língua de Camões. O estímulo para o encontro destas raízes, revelam-se sobretudo no sentimento que se traduz numa memória colectiva, fruto das experiências de cada um no seio da sua família e na comunidade em que se integram.

As visitas promovidas à terra de seus pais e avós, na busca das raízes é, indu­bitavelmente, um fator relevante na consolidação dos laços e do interesse pela sua herança cultural, mas não se fique por aí.

Uma comunidade que não cultive e incentive o interesse pelas suas raízes culturais é uma comuni­dade que não sobreviverá. Por isso, para além dos con­corridos convívios anuais e festas do chi­charro, torna-se urgente aproveitar estas associa­ções para se cons­tituírem numa voz forte e unida, trabalhando em prol na cultura e em defesa da comunidade, mas também exigindo das autoridades mais atenção para a pre­servação da língua e cultura.

Nesta hora em que cele­bramos a elevação a Vila é de toda a justiça realçar o papel que os Amigos de Rabo de Peixe tiveram na revindicação da promoção da freguesia de Rabo de Peixe a vila, pois foi da diáspora que partiu este forte sentimento e aspi­ração, que fora há muitos anos levados na bagagem de cada rabopeixense.

Esta homenagem deverá constituir também um despertar para as preocu­pações aqui deixadas e para nos consciencializarmos para esta real situação e os convívios anuais poderão e deverão incluir esta ver­tente/inquietação para não se ficar apenas pela alegria dos encontros, do convívio festivo e salutar e do matar saudades do nosso torrão insulano.

Viva a Vila de Rabo de Peixe.

Viva os Amigos de Rabo de Peixe

António Pedro Costa