“É uma honra e privilégio quando o presidente do Governo Regional dos Açores está presente nas Grandes Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra”

Na hora da despedida

 

— Duarte Nuno Carreiro, presidente

 

As Grandes Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra, as maiores dos portugueses nos EUA e que têm lugar em Fall River, crescem anualmente em aderência e tradição.

São um quadro vivo da cultura popular açoriana que se reflete numa cidade de longas tradições e onde mesmo ainda hoje se fala português em cada esquina.

Vivem-se ali anualmente as duas mais relevantes componentes da vivência lusa nos EUA, o popular e o religioso, numa inte­gra­ção perfeita na sociedade americana, que reconhece o valor da comunidade portuguesa.

Duarte Nuno Carreiro, que durante os dois últimos dois anos, presidiu às Gran­des Festas, culminando num grande êxito, aplau­didas por mais de 250 mil pessoas, despede-se, dei­xan­do um trilho de exito que basta seguir para se atingirem os píncaros do sucesso.

“Tenho de admitir que as edições de 2016 e 2017 correram muitíssimo bem. Mas falando da edição de 2017, a mais próxima, que ainda está fresquinha na mente das pessoas, foi mais uma de grandioso êxito, com o factor tempo a dar o seu imprescindível apoio. No aspeto das festas em si, com mais um entreteni­mento, ou menos um, o sucesso é já uma constante. A comunidade da Nova Inglaterra, com a vinda do Canadá, da Bermuda e mesmo dos Açores, for­mam um todo, que como é referido muitas vezes no Portuguese Times, “copiar é difícl, ultrapassar impos­sí­vel”. Em 2016 tivemos  comemoração do 30.º ani­versário das Grandes Fes­tas. Como ainda estão re­cordados, as Grandes Fes­tas começaram em 1986, em 2016 fizeram 30 anos.

Tive o privilégio e a honra de ter como convi­dado de honra o presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, que surpreendentemente suspendeu a campanha eleitoral (concorria à ree­leição para presidente) acedendo ao convite de convidado de honra. Aqui viveu connosco numa brilhante manifestação da cultura popular e cristã. Mostrou um grande afeto e respeito por todos os aço­rianos, não só os residentes nos Açores como os aqui radicados pela diáspora. Não será qualquer indivi­dualidade política que interrompe uma campanha eleitoral, para aceder a um convite, sabendo que aqui não podia colher qualquer voto. Viu-se isso o ano passado em que todos os presidentes de câmara foram convidados, só um apareceu, mas integrado num grupo visitante. No caso do presidente, abdicou de uns dias de campanha eleitoral, para estar aqui con­nosco. Isto foi uma honra e sentimo-nos todos muito privilegiados por ter acontecido”, sublinha Duarte Carreiro resumindo a sua presidência de luxo.

“O ano passado (2017), sem o simbolismo dos 30 anos, tudo voltou a correr da melhor forma. Ver o Kennedy Park ser centro de congregação e arruamentos em volta de mais de 250 mil pessoas, é lindo, é reconfortante para quem trabalha. Mas este gran­dioso êxito não é só o fruto do trabalho do presidente e sua direção, mas sim e também de São Pedro, que, quando está bem disposto connosco manda-nos o inconfundível brilho do sol em céu azul e temperaturas confortáveis, e aqui, sim, a mola real do grandioso sucesso.

O presidente é o elo de ligação das boas vontades das capacidades das pes­soas que estão connosco. Algumas delas já somam trinta anos na organização deste autêntico colosso comunitário. Queria no meio de tudo isto referir Ramiro Mendes, que foi o meu braço direito. Foi o meu secretário. Não sendo açoriano, é natural de Vila de Rei, distrito da Covilhã, onde não se realizam festas do Espírito Santo. Por certo o seu baptismo a esta tradição aconteceu junto da centenária igreja de Nossa Senhora do Rosário em Providence, a mais antiga portuguesa nos EUA. O seu espírito de colaboração e dedicação às Grandes Festas é impressionante, para quem foi apresentado a esta tradição nos EUA. Tem sido sempre um ele­mento de grandioso valor e feliz do presidente que tem Ramiro Mendes, como secretário. Era um alerta constante em cada passo que era preciso dar e que não se podia falhar. Como diz o poeta “ditosa Pátria que tais filhos tem”, su­blinha Duarte Carreiro.

 

A colaboração das irmandades

“A colaboração das ir­man­dades é meio caminho andado para o êxito das Grandes Festas. Não po­demos esquecer que o sonho do fundador Heitor Sousa e que concretizou, foi ver congregado em Fall River as irmandades da Nova Inglaterra. A elas se juntaram outras prove­nienes do Canadá, Ber­muda e até do Colorado. Este ano houve um mal entendido com as bandas. Fez-se uma reunião e tudo ficou esclarecido, ao ponto de ter havido uma adesão total às Grandes Festas. As que não estiveram presen­tes foram as que não se encontravam nos EUA.

Nestas coisas é bom que haja sempre um enten­dimento entre as irman­dades e banda de música, porque são imprescindíveis para a festa. Não há festa sem banda de música e sem irmandades. É bom que haja reuniões periódicas, tanto com as irmandades, como com as bandas de música, para que estejamos todos a comungar das mesmas ideias. Nas minhas presidências dei seguimen­tos aos procedimentos anteriores e percebi que havia algumas falhas que tentei colmatar. Talvez tivesse havido uma distra­ção da minha parte no contacto com as bandas e irmandades com o devido respeito e daí o mal enten­dido sanado de imediato através do diálogo que vai dar frutos no futuro”.

 

As Sopas do Espírito Santo

“Já vinha a contactar com a organização das Grandes Festas há muito tempo, baseado nas grandes relações de amizade com Heitor Sousa. Muitas vezes em Lisboa em funções profissionais era con­tactado por Heitor Sousa, para tratar de assuntos junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Eu dentro do melhor do meu saber, tentava a resolução das questões que ele me colocava.

Há uns seis anos atrás Luís Carreiro assume a presidência das Grandes Festas e convida-me para relações públicas. Foi o meu primeiro passo para a minha integraçao nas Grandes Festas. Os dois anos de Luís Carreiro finalizam e entra para a presidência José Silva. Convida-me para relações públicas e vice-presidente.

No último ano da presi­dência de Joe Silva, este arrisca servir as tradicio­nais Sopas do Espírito Santo pela primeira vez no Kenndy Park. A ideia mestra é lançada por Victor Santos em entrevista ao Portuguese Times e Por­tuguese Channel para o programa “Comunidade em Foco”.

Ricardo Farias, que de­sempenhava as funções de mestre de cerimónias no jantar de encerramento das Grandes Festas, volta a tocar na mesma tecla das Sopas no Kennedy Park. Joe Silva, decide arriscar. Vai buscar o David Bairos, na altura, presidente do Centro Cultural de Santa Maria em East Providence e especialista na confeção de Sopas do Espírito Santo à moda da ilha de Santa Maria. Estava lançado a semente do que iria ser mais um sucesso junto das Grandes Festas.

Ao assumir a presidência e dado o êxito conseguido desde a primeira edição do serviço das Sopas, não restava outra alternativa senão dar-lhes continui­dade. E assim na quarta-feira das Grande Festas, há a recitação do Terço e segue-se serviço das Sopas do Espírito Santo, gratuitas a todos quantos de queiram juntar nós no reviver desta tradição. No meu primeiro ano, os cozinheiros foram os mesmos de Joe Silva. No meu segundo ano usamos oriundos de outra ilha, dando assim possibilidade a que as sopas de diversos sabores sejam servidas no Kennedy Park”.

 

A introdução do serviço das Sopas do Espírito Santo nas Grandes Festas valeu

a pena

As Sopas fazem parte integral das Festas do Espírito Santo. O problema que se levantou foi finan­ceiro. E daí o manter-se à quarta-feira, dado que nos restantes dias das festas, a cozinha já está em funcio­namento, como forma de angariação de fundos.

Tem de haver receitas para pagar as despesas. Temos que admitir que a ideia foi ótima. É um pouco mais trabalho. Mas valeu a pena”.

 

O Cortejo Etnográfico do Bodo de Leite

O Cortejo Etnográfico do Bodo de Leite das Gran­des Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra é a coroa de glória do meu grande amigo Clemente Anastácio.

Aquele ativo elemento oriundo da Terra Chã, ilha Terceira, vive a sua obra. Já se vem lamentando do peso dos anos e como tal precisa de ajuda. Pode manter-se na orientação, mas precisa de alguém que possa correr entre o Parque das Portas da Cidade e o Kennedy Park. Fazer a Columbia Street para cima e para baixo, já não é para o bom Clemente. Temos de admi­tir que o Cortejo Etnográ­fico é componente das Grandes Festas, que mais gente chama à cidade de Fall River. E como tal temos que manter o cortejo com todas as suas compo­nentes sócio culturais no programa das Grandes Festas.

São milhares de pessoas que ladeiam a Columbia Street a South Main Street em direção ao Kennedy Park, em cuja entrada um mar de gente aguarda o final do cortejo. Temos de admitir que o Cortejo Etno­gráfico é um quadro vivo de costumes e tradições das origens, a desfilar pela velha cidade dos teares. Ainda não ter­minou o des­file e já Cle­mente Anastá­cio tem na mente o que vai trazer para o ano seguinte”.

 

A missa de Coroação

e a Procissão

Nós tinhamos duas situa­ções. Algo tinha de ser feito em relação à procissão.

Na presidência de Luís Carreiro já o trajeto da procissão foi encurtado. Nos primeiros anos com a grande aderência das ir­mandades, talvez se justi­ficasse o longo percurso utilizado.

O percurso altera-se quando surge um outro pormenor relacionado com a igreja de Sant’Anne. Esta igreja era utilizada prati­camente desde o início das Grandes Festas.

Mas a certa altura a idade da igreja origina a queda de um pedaço do teto e a consequente interdição ao culto. Como alternativa e no último ano da presidên­cia a missa de coroação foi celebrada na igreja da cave.

Foi um ano húmido. A falta de ventilação, a forte aglomeração das pessoas. Tudo isto acabaria por originar um certo descon­forto nos presentes. No primeiro ano da minha presidência, surgem duas hipóteses, ou fazemos uma missa campal, ou passá­vamos a fazer as cerimó­nias na Sé Catedral de Fall River que não era muito longe. Voltando a referir a missa campal. Podemos ter as contrariedades das condições atmosféricas. Calor, humidade, chuva, vento. Tudo isto é possível.

Falamos com o Bispo de Fall River, que deu auto­rização para se celebrar a missa de coroação na cate­dral. Com igreja confirma­da, vamos à procissão que ao sair da catedral entra na South Main Street direita ao Kennedy Park. Festas religiosas são festas de alegria e amor”.

 

Quanto maior

é a nau, maior

é a tormenta

Quanto maiores são as festas, maior é a respon­sabilidade de as manter no patamar do sucesso conse­guido. Com as novas tecnologias levamos as festas ao mundo. Ouvimos os mais vivos comentários com incentivo à continui­dade. Temos no entanto que respeitar os fundadores. As suas ideias. O esforço feito para nos deixar esta he­rança. No início houve mais dificuldades. Hoje tudo é mais facilitado”.

 

O pavilhão

Nas duas últimas edições das Grandes Festas, quem de deslocava na South Main Street ou entrava no Kennedy Park deparava com o Pavilhão Açores.

O Pavilhão Açores surge graças a um plano de divulgação dos Açores nos EUA. Nos dois anos no mês de agosto havia a disponibilidade daquele pavilhão em poder vir para Fall River. Envolveu verbas avultadas mas estava inte­grado no plano de divulga­ção dos Açores nos EUA. Foi o que se pode chamar de juntar o útil ao agradá­vel. No momento atual temos equipas a fazerem a promoção dos Açores nos EUA”.

 

Grandes Festas do Espírito Santo em Ponta Delgada reativadas

pela influência das Grandes

Festas da diáspora

As Grandes Festas do Espírito Santo em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, foram uma ini­ciativa de Victor Cruz. Heitor Sousa foi o respon­sável pela coordenação da participação de Rabo de Peixe.

Com o tempo as festas acabaram. Entretanto Heitor Sousa vem para os Estados Unidos ao serviço do Co­mercial dos Açores. Trouxe a tradição. Falou com as mordomias. E avançou com a ideia.

Entretanto Berta Cabral, na ocasião presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, vem aos Estados Unidos como convidada das Gran­des Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra. Ao aperceber-se de toda esta manifestação do povo açoriano na diáspora, no regresso reativa as Grandes Festas do Espírito Santo em Ponta Delgada. Foi a diáspora a reativar a origem”.

 

• Fotos e entrevista de Augusto Pessoa